sexta-feira, janeiro 05, 2007

Transmontano

Pastor de penedos

São quase seis da manhã
Ainda se vê a estrela do pastor
Tenho sete anos
O pai morreu no principio do inverno
Pneumonia
Dizem que ja havia medicamentos
Mas como poderia
Ter pago o médico
E a farmacia
Sem tirar o pão da boca
Dos meus cinco irmãos mais novos?
O mais velho, o Julio, que tinha então
Dois anos mais do que eu
Ficou com o rebanho
Andava pelo monte
Entre penedos e lobos
A noite inteira
Agora ia-lhe levar, à Cotovia
Uma codea de centeio
Uma "mãoecheia" de figos
E uma pinga
Enquanto o Julio dormia
Era eu que cuidava do gado
Se fosse, chegaria atrasado
A escola
Assim, tirei apenas a terceira classe
Depois...
O Senhor Padre Cura bem queria
Que fosse para Alcobaça
Dizia que não teria
Qualquer dificuldade mais tarde
Para entrar no seminario
Mas,
Com o Julio atras das ovelhas
E a mãe com cinco crianças ao colo
Quem iria sachar as batatas
Amanhar a vinha
E cegar o pão?
A noitinha,
Depois de tocar as vacas do lameiro,
Passarei pela capela
Do Senhor dos Aflitos.
Pedirei apenas que arranje algum fardo
para levar até Feces de Abajo
Dizem que a Guardia Civil
Atira sem prevenir
No entanto,
Sempre sera melhor
Morrer no contrabando
Que morrer de fome.

(Tinhela
Concelho de Valpaços
1936)

2 Comments:

Blogger espiral said...

Já te disse que amei este texto/poema.

3:42 da manhã  
Blogger Poliedro said...

Eram tempos muito sofridos e difíceis. Apesar de tudo, adoro as gentes transmontanas por tudo o que fazem, pensam e acreditam. São pessoas ímpares pela entrega, pelo amor aos seus e pelo carácter sincero.
Boa!
Gostei.
Continua.
Serei um leitor assíduo das tuas lembranças e pela forma como as escreves.
Abraço.

7:26 da manhã  

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home