sábado, janeiro 06, 2007

Transmontaneidade

Comecei este texto como comentário ao companheiro Asasparaque, dissertei, me envolvi e achei que deveria publicar com mais visibilidade.

Eram muito duros, esses tempos que tão bem descreves nas tuas palavras, sobre Trás-os-Montes*.

Morria-se cedo, com aquelas doenças que hoje achamos triviais, e que todos nos surpreendemos, quando alguém leva no passaporte para outra vida, essa chancela… sendo até motivo para vir na televisão, abrir inquérito, etc….

A esperança de vida era reduzida, e vivida com tantas limitações, quem nem conta se dava que afinal, se vivia!
O Estado nada assegurava, nada protegia,... era a mãe natureza que ia cuidando disso, ano após ano, renovando o ciclo da vida, mas, no meio de tanta fome, tanto frio e tanta miséria humana, torna-se difícil descrever e compreender o drama de cada família.

Injustiça?
Era palavra que nem habitava no vocabulário dessas gentes! O que lhes habitava nas emoções e sensações, era mesmo, a FOME, com as quatro letras bem desenhadas nos seus estômagos cada vez menores.


A luta pela sobrevivência era diária, e ia-se enganando a fome, com uma côdea de pão, às vezes uma malga de caldo e umas orações ao Altíssimo. Não havia princípios, caprichos ou projectos para o futuro, quando se fixava os olhos escancarados dos filhos, que nasciam um após outro; só se construía uma prioridade:

fazê-los vingar!

...muitos morriam “anjinhos”, e as outras crianças é que carregavam o caixão, até à cova, na eterna cumplicidade da miséria e na aceitação de uma infância por cumprir, mas solidária.


O próximo seria um deles!


Uns morriam sem crescer, outros morriam um pouco mais tarde que os primeiros, ganhando asas celestiais, na fatalidade da vida madrasta. Outros, os mais felizes, talvez, nem despesa davam: nasciam directamente para o céu.


A fome, era fome a sério.

FOOOOOOOMMMMMMEEEE!

Fome!

F-O-M-E!

Carência alimentar extrema. Aquilo que hoje, nem sabemos bem avaliar o que é, pois raramente experimentamos a sensação de estômago vazio por mais de 2 ou 3 horas! Não sabemos sequer configurar uma situação parecida. Chega-nos por vezes imagem de sítios distantes, de gentes de outra cor...

...mas o outro lado da África, fica tão longe!!!!


Andava-se descalço, fizesse calor ou frio! Os dedos dos pés por vezes, "engatinhavam" e convertiam-se numa chaga, de tanto gelo pisar. As crianças aprendiam a trabalhar, logo que saíam do colo da mãe, para dar a vez ao recém nascido.

Iam para o pasto; junguiam as vacas -operação complicada, pois nem lhes chegavam aos cornos, quanto mais colocar-lhes o jugo e as molhelhas, sem receberem umas valentes cornadas!

...aconchegavam-se, deitando-se ao lado de uma ovelha mais tolerante, absorvendo um pouco de calor, da sua lã, sob o olhar silencioso, mas não menos sofrido, dos que os “botaram” ao mundo.


O leite era bebido da teta da cabrita, quando ela paria, e mesmo assim, eram as sobras que a cria deixava. E isto era quando tudo corria bem. Só que, era raro tudo correr bem!


Fraldas?

Não existiam!

Usavam-se calças de rabo aberto, onde os excrementos escorriam e caíam para o exterior.
Impressiona ler isto?

... imaginem senti-lo em dias de neve, sincelo e de muito, muito frio!!!… era assim que as crianças aprendiam a controlar as suas necessidades fisiológicas básicas!

Aprendiam sofrendo!

Sempre! … de geração em geração!


Nada se deitava fora, tudo se aproveitava! até a temperatura da urina e da bosta dos animais, e da sua posterior decomposição, ajudava a aquecer as modestas casas ou os abrigos onde viviam,… ou pensam que era moda, viver junto dos animais?



Morria-se de pneumonia, de febre tifóide, de tétano, de tuberculose, de gripe, de anginas…

As enfermidades físicas, não se curavam, cortavam-se ou talhavam-se.

Talhava-se o coxo, cortava-se o ar, o mau olhado e a ziripela, levantava-se o ventre, rezava-se o sarampelo (sarampo, sarampelo, sete vezes vem ao pelo, põe-lhe papel e água benta) e padecia-se de trasorelho uma infinidade de dias. As enfermidades da alma, temiam-se e partilhavam-se numas “alminhas”, em hora de maior aflição.

Um milagre acontecido, mandava-se pintar a cena a um habilidoso e se oferecia ao Sr. do Calvário, em sinal de agradecimento, e para a próxima não ser pior.
Nascia-se e morria-se em casa, e isolava-se para sempre os leprosos, numa aldeia distante, para os lados de Mira.


Os loucos se amarravam!


Esses tempos cumpriram bem a chamada selecção natural. Sem dúvida!
Poucos morriam de cancro, de alzheimer ou de esclerose múltipla, pois não tinham sequer o privilégio de lá chegar. Eram raros os que tinham tempo para ultrapassar os cinquenta.


Quando penso em injustiça, penso em guerras laborais. Penso na falsa democratização do ensino, penso no desemprego, na desigualdade de oportunidades, nas frágeis e incompatíveis relações de produção, penso em países invadidos por outros, que se sentem no direito de o fazer, ou seja, configuro os extremos do que é ou não justo, numa dimensão que já nem engloba estas situações limite, tão vulgares na transmontaneidade de há umas décadas atrás, e que se caracterizavam, pela precaridade extrema, pela não existência de tudo e de nada, pela miserabilidade consciente a todos os níveis,… pela dureza granítica de sentir!


Esta realidade provavelmente, e felizmente, será estranha a muita gente, mas afinal não precisamos de recuar mais de 3 décadas. Ela está a um passo atrás de nós, espreitando-nos ainda!

O mau, não se distinguia do péssimo, e o absolutamente insuportável, era o vivido no dia a dia.

Apenas há 3 décadas, existiam pessoas iguais a nós, que esperavam que os vizinhos acendessem o lume, para pedir o lume emprestado, evitando que se gastasse um fósforo, pois o dinheiro era muito caro!

Acho que injustiça mesmo, é quando alguém vem lembrar as vantagens do antes, a justiça dos governantes que multiplicavam a fome, e defendiam o vinho como meio de matar a fome ao povo.

Injustiça, é apelar ao “antigamente é que era bom”.


Esperemos que nunca mais ninguém tenha de provar sequer o antigamente, muito menos vivê-lo!
Já é mau recordá-lo!
Para a frente é que se caminha!




*Trás-os-Montes - terra de muitos montes, virados de costas para o mar, de invernos e infernos.
Refiro-me às terras frias de solos pobres resultantes de clivagens e erosões milenares do Alvão e do Palão, sem terra preta para cultivo, por onde Cristo não passou, e onde os penedos serviram para avistar mais longe e construir certos dias de esperança.

2 Comments:

Blogger Poliedro said...

Quando li esta narrativa, encontrei-me no final, estarrecido e comovido. Pensei que lera os lamentos e sonhos inacabados de alguém que habita comigo, ao meu lado, usando estes termos constantemente e contando incessantemente tudo isto e algo mais, sem eu entender ou acarinhar. Os pés descalços... as "sopas de cavalo cansado" pela manhã...a zeripela...a fome...o abandono da escola precocemente...a miséria...o salto para França...o seminário impossível de frequentar por ser incomportável e por ser a única saída... Enfim, tudo. Mas, tudo isto, na verdade! Quem sou eu, afinal? Um monstro, sem sentimentos, fechado a emoções e à compreensão da vida sofrida? Uma aberração que não ouve, nem sente?
Fiz uma coisa de imediato! Fechei o computador, subi as escadas três a três, e entrei no seu quarto. Passei-lhe a mão pela face gasta acariciando-a, beijei-o e pedi-lhe humildemente desculpa. Depois, agarrei-me a ele e chorei. Chorei e chorei, ininterruptamente, até lhe mostrar todo o meu amor. Apenas sorriu, como o faz sempre e eu entendi-o pela primeira vez. Sai do quarto a correr como um louco e só parei quando entendi verdadeiramente o que acabara de ler.
Jamais os esquecerei, podem ter a certeza! Jamais! A ele e ao texto!

6:34 da tarde  
Blogger espiral said...

Poliedro, fizeste um verdadeiro cerco ao esquadria, e registaste os teus comentários, como sempre inspirado e tolerante.
Começo a achar interessante este desafio que nós cinco aceitamos, exercitando a escrita com temas diferentes em cada mês.
Talvez um dia repegue no transmontaneidade e o amplie por outras experiências, por outros sentires que talvez valha a pena registar.
Abraço grande

7:26 da manhã  

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