terça-feira, janeiro 09, 2007

Injusta Vida de Crianças da Rua


Injusta Vida de Crianças da Rua



As duas débeis silhuetas de pequenitas de pés nus, arranjando um colo para mais três irmãs, sabe-se lá como, suportavam a dor e a miséria, sentadas no chão do empedrado da rua, agora sem vivalma. Haviam mendigado uma côdea de pão para enganar a fome, a si e, às irmãs mais novas, desamparadas e entregues ao acaso da vida.

Não teriam mais de treze anos de amargura!

Parece que as revejo, deambulando como uma chama ardente e incómoda no meu pensamento.
Eram mais umas crianças da rua, como outras o são, retratando a podridão da sociedade. A podridão da vida. A podridão do Mundo. A podridão dos que se sentam nas douradas e aconchegantes poltronas do poder, sem sentir ou compreender.

Só sentir neles. Só compreender neles.

Há tristeza no coração grande e na alma enorme delas, pobres pessoas pequenas, singelas e doces, que agora abrem os olhares para fora delas, porque de pessoas se tratam, embora pequenas. Quanto mais sofredoras estas pessoas são por cresceram cedo demais, mais sonhos contêm nelas, enquanto sustentam o sorriso e a alegria de serem.

Entender o Mundo?

Quantos fantasmas inoportunos criados naquelas cabecitas puras e belas?

Simples, mas malfadadas pela complexidade do destino reservado.

Crianças incómodas da rua…

Todas elas haviam aparecido ao mundo, no desengano e no incoerente sentimento dum amor que existiu. Na verdade, existiu! Foi real e inequívoco, por ser intencionalmente existente! Um amor entegre com ardor e necessidade à vida…

Veio-me às ideias que a indiferença não habitava comigo e conheci uma história.

Uma história real feita de sonhos ternos e infantis! Várias histórias que ensinam…Que marcam… Que merecem ser atentamente escutadas…Compreendidas…
A sua história! A história delas!

Como se torna fácil conhecer uma história de desencanto, de dores sofridas que lhes vão lá dentro, bem dentro delas, e falam, falam, falam…sem fim? Sem sequer emitir um som para respirar alento nas palavras e alento para se dizerem perdidas.

Totalmente perdidas, mas onde o rancor não surge!

Eu conheci as suas histórias infortunadas e injustas porque elas as conheciam, quando não as deviam conhecer, porque não deviam ter acontecido com elas. Com a vida delas!
Absurdo de vida! – Pensei, desabafando comigo, meio incrédulo, meio trôpego, esfregando sôfrego e furiosamente as emoções mais impensadas, pela discórdia e revolta em me ter comprometido não aceitar as incongruências injustas escutadas, numa cantilena em voz desperta de crianças, que pareciam não ter fim.

Crianças da rua…!

Pai alcoólico…
Mãe prostituta…

As voltas que o Mundo dá! Difíceis. Incontornáveis. Irreversíveis.

Crianças totalmente perdidas, mas onde o rancor não surge. Belas! Ternas! Conformadas com o destino! Um destino incerto. Um destino que se vai tornar suado, duro! Mas, saberão? No seu íntimo, mas no seu mais profundo intimo, creio que saberão. Só que fazem por se calar…por ignorar…por ocultar…Mas, sim, sabem-no! Quase tenho a certeza!
Injustiças…

Ninguém foi o culpado! Talvez, a vida… Quem sabe?

Crianças da rua…

Como vos amo!

Só sei contar histórias…

Só me resta contar a vossa desafortunada história…por ser Real!

Isso, jamais esquecerei ou conseguirei calar!

Amo-vos! Só sei isso!

By Poliedro, numa noite sem sono. Janeiro de 2007.

sábado, janeiro 06, 2007

Transmontaneidade

Comecei este texto como comentário ao companheiro Asasparaque, dissertei, me envolvi e achei que deveria publicar com mais visibilidade.

Eram muito duros, esses tempos que tão bem descreves nas tuas palavras, sobre Trás-os-Montes*.

Morria-se cedo, com aquelas doenças que hoje achamos triviais, e que todos nos surpreendemos, quando alguém leva no passaporte para outra vida, essa chancela… sendo até motivo para vir na televisão, abrir inquérito, etc….

A esperança de vida era reduzida, e vivida com tantas limitações, quem nem conta se dava que afinal, se vivia!
O Estado nada assegurava, nada protegia,... era a mãe natureza que ia cuidando disso, ano após ano, renovando o ciclo da vida, mas, no meio de tanta fome, tanto frio e tanta miséria humana, torna-se difícil descrever e compreender o drama de cada família.

Injustiça?
Era palavra que nem habitava no vocabulário dessas gentes! O que lhes habitava nas emoções e sensações, era mesmo, a FOME, com as quatro letras bem desenhadas nos seus estômagos cada vez menores.


A luta pela sobrevivência era diária, e ia-se enganando a fome, com uma côdea de pão, às vezes uma malga de caldo e umas orações ao Altíssimo. Não havia princípios, caprichos ou projectos para o futuro, quando se fixava os olhos escancarados dos filhos, que nasciam um após outro; só se construía uma prioridade:

fazê-los vingar!

...muitos morriam “anjinhos”, e as outras crianças é que carregavam o caixão, até à cova, na eterna cumplicidade da miséria e na aceitação de uma infância por cumprir, mas solidária.


O próximo seria um deles!


Uns morriam sem crescer, outros morriam um pouco mais tarde que os primeiros, ganhando asas celestiais, na fatalidade da vida madrasta. Outros, os mais felizes, talvez, nem despesa davam: nasciam directamente para o céu.


A fome, era fome a sério.

FOOOOOOOMMMMMMEEEE!

Fome!

F-O-M-E!

Carência alimentar extrema. Aquilo que hoje, nem sabemos bem avaliar o que é, pois raramente experimentamos a sensação de estômago vazio por mais de 2 ou 3 horas! Não sabemos sequer configurar uma situação parecida. Chega-nos por vezes imagem de sítios distantes, de gentes de outra cor...

...mas o outro lado da África, fica tão longe!!!!


Andava-se descalço, fizesse calor ou frio! Os dedos dos pés por vezes, "engatinhavam" e convertiam-se numa chaga, de tanto gelo pisar. As crianças aprendiam a trabalhar, logo que saíam do colo da mãe, para dar a vez ao recém nascido.

Iam para o pasto; junguiam as vacas -operação complicada, pois nem lhes chegavam aos cornos, quanto mais colocar-lhes o jugo e as molhelhas, sem receberem umas valentes cornadas!

...aconchegavam-se, deitando-se ao lado de uma ovelha mais tolerante, absorvendo um pouco de calor, da sua lã, sob o olhar silencioso, mas não menos sofrido, dos que os “botaram” ao mundo.


O leite era bebido da teta da cabrita, quando ela paria, e mesmo assim, eram as sobras que a cria deixava. E isto era quando tudo corria bem. Só que, era raro tudo correr bem!


Fraldas?

Não existiam!

Usavam-se calças de rabo aberto, onde os excrementos escorriam e caíam para o exterior.
Impressiona ler isto?

... imaginem senti-lo em dias de neve, sincelo e de muito, muito frio!!!… era assim que as crianças aprendiam a controlar as suas necessidades fisiológicas básicas!

Aprendiam sofrendo!

Sempre! … de geração em geração!


Nada se deitava fora, tudo se aproveitava! até a temperatura da urina e da bosta dos animais, e da sua posterior decomposição, ajudava a aquecer as modestas casas ou os abrigos onde viviam,… ou pensam que era moda, viver junto dos animais?



Morria-se de pneumonia, de febre tifóide, de tétano, de tuberculose, de gripe, de anginas…

As enfermidades físicas, não se curavam, cortavam-se ou talhavam-se.

Talhava-se o coxo, cortava-se o ar, o mau olhado e a ziripela, levantava-se o ventre, rezava-se o sarampelo (sarampo, sarampelo, sete vezes vem ao pelo, põe-lhe papel e água benta) e padecia-se de trasorelho uma infinidade de dias. As enfermidades da alma, temiam-se e partilhavam-se numas “alminhas”, em hora de maior aflição.

Um milagre acontecido, mandava-se pintar a cena a um habilidoso e se oferecia ao Sr. do Calvário, em sinal de agradecimento, e para a próxima não ser pior.
Nascia-se e morria-se em casa, e isolava-se para sempre os leprosos, numa aldeia distante, para os lados de Mira.


Os loucos se amarravam!


Esses tempos cumpriram bem a chamada selecção natural. Sem dúvida!
Poucos morriam de cancro, de alzheimer ou de esclerose múltipla, pois não tinham sequer o privilégio de lá chegar. Eram raros os que tinham tempo para ultrapassar os cinquenta.


Quando penso em injustiça, penso em guerras laborais. Penso na falsa democratização do ensino, penso no desemprego, na desigualdade de oportunidades, nas frágeis e incompatíveis relações de produção, penso em países invadidos por outros, que se sentem no direito de o fazer, ou seja, configuro os extremos do que é ou não justo, numa dimensão que já nem engloba estas situações limite, tão vulgares na transmontaneidade de há umas décadas atrás, e que se caracterizavam, pela precaridade extrema, pela não existência de tudo e de nada, pela miserabilidade consciente a todos os níveis,… pela dureza granítica de sentir!


Esta realidade provavelmente, e felizmente, será estranha a muita gente, mas afinal não precisamos de recuar mais de 3 décadas. Ela está a um passo atrás de nós, espreitando-nos ainda!

O mau, não se distinguia do péssimo, e o absolutamente insuportável, era o vivido no dia a dia.

Apenas há 3 décadas, existiam pessoas iguais a nós, que esperavam que os vizinhos acendessem o lume, para pedir o lume emprestado, evitando que se gastasse um fósforo, pois o dinheiro era muito caro!

Acho que injustiça mesmo, é quando alguém vem lembrar as vantagens do antes, a justiça dos governantes que multiplicavam a fome, e defendiam o vinho como meio de matar a fome ao povo.

Injustiça, é apelar ao “antigamente é que era bom”.


Esperemos que nunca mais ninguém tenha de provar sequer o antigamente, muito menos vivê-lo!
Já é mau recordá-lo!
Para a frente é que se caminha!




*Trás-os-Montes - terra de muitos montes, virados de costas para o mar, de invernos e infernos.
Refiro-me às terras frias de solos pobres resultantes de clivagens e erosões milenares do Alvão e do Palão, sem terra preta para cultivo, por onde Cristo não passou, e onde os penedos serviram para avistar mais longe e construir certos dias de esperança.

Pastor



(Foto de Georges Dussaud in Tras-os-montes)

1954...é assim, a vida de pastor.
O granito por companhia e a solidão por companheira
A missa do domingo, o unico espetaculo da semana
Por vezes, la vem um ou outro lobo trocar umas palavras
Ou roubar um cordeiro
é consoante
No primeiro domingo de Setembro
a festa em Valpaços
O fogo de artificio como unica promessa de felicidade
vinda dos céus
A jeira não dava para comer
Cegadas, so uma vez por ano
Um dia o "patria" la me levou para o ultramar
em Tras-os-montes
os saltões eram verdes
mesmo assim recusei
o primeiro prato de camarões
na camioneta que me levou para as matas de café
ia também
a esperança
So regressei à aldeia
a finais de 75
o céu continuava insipido
depois de 3 dias imigrei para França
até hoje
dia em que duas palavras resumem uma vida inteira

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Transmontano

Pastor de penedos

São quase seis da manhã
Ainda se vê a estrela do pastor
Tenho sete anos
O pai morreu no principio do inverno
Pneumonia
Dizem que ja havia medicamentos
Mas como poderia
Ter pago o médico
E a farmacia
Sem tirar o pão da boca
Dos meus cinco irmãos mais novos?
O mais velho, o Julio, que tinha então
Dois anos mais do que eu
Ficou com o rebanho
Andava pelo monte
Entre penedos e lobos
A noite inteira
Agora ia-lhe levar, à Cotovia
Uma codea de centeio
Uma "mãoecheia" de figos
E uma pinga
Enquanto o Julio dormia
Era eu que cuidava do gado
Se fosse, chegaria atrasado
A escola
Assim, tirei apenas a terceira classe
Depois...
O Senhor Padre Cura bem queria
Que fosse para Alcobaça
Dizia que não teria
Qualquer dificuldade mais tarde
Para entrar no seminario
Mas,
Com o Julio atras das ovelhas
E a mãe com cinco crianças ao colo
Quem iria sachar as batatas
Amanhar a vinha
E cegar o pão?
A noitinha,
Depois de tocar as vacas do lameiro,
Passarei pela capela
Do Senhor dos Aflitos.
Pedirei apenas que arranje algum fardo
para levar até Feces de Abajo
Dizem que a Guardia Civil
Atira sem prevenir
No entanto,
Sempre sera melhor
Morrer no contrabando
Que morrer de fome.

(Tinhela
Concelho de Valpaços
1936)