quarta-feira, dezembro 06, 2006

senti o mundo a desabar


...senti o mundo a desabar.

Diagnóstico: ALZHEIMER/ESCLEROSE MÚLTIPLA.

Quis respirar fundo e não consegui.
Tinha as mãos do mundo todo a sufocar-me, e sentia a ausência de um suporte para os meus pés!
Passou pela minha memória uma série de sinais estranhos, que eu vinha observando nos últimos meses. Mais grave que os desequilíbrios sucessivos, falhas na memória, desorientação espacial, afigurava-se o meu registo que ficou eterno, de olhar demente com que um dia, me fixou o rosto, no meio de um sorriso sem contrôle.
Os seus olhos amêndoados, com a íris raiada, entre o verde azeitona e o castanho claro, que aconchegavam a minha existência, que me davam segurança, quando menina, e que julgara eternos, poisaram em mim sem nexo, sem lógica, sem profundidade, descoordenados do pensamento, descontextualizados de tudo e de nada, despropositados, dementes, perdidos da postura racional e coerente de toda uma vida.
O meu cordão umbilical foi violentamente cortado nesse instante, e sangrei…sem qualquer intimidade, sem preparativos, sem cuidados assépticos, na presença de todos, completamente alheados, da gravidade da situação.
Um dia após outro, a perda de actividade, de faculdades, de afectos, entrelaçava-se, com a perda sucessiva do ser humano que me gerou, progressivamente incapaz de exercer autocrítica, de tomar decisões, de se organizar minimamente, e eu incapaz de me reorganizar, de estabelecer metas e objectivos, de renovar afectos, fortalecer empatias…
A autonomia, passou lentamente a dependência total.
A frescura da minha conduta converteu-se em amargura constante.
Os afectos formais foram-se desconstruindo, desmaterializando, numa dialéctica estranha de viver, perseguindo teimosamente um rumo com sentido negativo de involução.
Os papéis, estranhamente inverteram-se; de protegida passei a protectora, sem a mínima preparação, não conseguindo vestir bem essa roupagem, que assistia ao esvaziar de conteúdos de uma alma, que eu julgava e queria crer como inalterável.
As perdas sucessivas caracterizavam-se por uma bilateralidade de proporcionalidade inversamente descontrolada, tocando-se por vezes num eixo de simetria que eu tinha dificuldade em sustentar, levando-me a cometer erros de avaliação, permanentes e insuportáveis.
A minha sobrevivência diária à depressão, verificava-se apenas pela impossibilidade de enveredar por esse caminho. Nem esse caminho me restava.
Cada dia se tornou mais cinzento que o anterior, numa paleta monocromática, onde cada vez mais, predominava a ausência de luz, numa existência cada vez mais vegetal e dependente. Os negros cada vez mais negros, como se fosse possível alguma distinção entre eles, ou como se fosse possível o preto ser mais escuro que o negro ou vice versa.., e a primavera não despontou durante seis longos e marcantes anos, que se converteram em décadas de sofrimento, de perdas irrecuperáveis, num processo impossível de inverter, sem fim determinado, que nos invadia até aos ossos, até à alma, até ao centro dos nossos centros.
O olhar… esse passou a ser de um estranho, mudou de cor, de forma, de tamanho, de textura, de tempo, de amplitude, de configuração…
…e um dia gelou-me os dedos da mão, com a rigidez marmórea do último dia.
Espiral

4 Comments:

Blogger asasparaque said...

Não é facil escrever sobre a dor intima que lacera a carne que foi a nossa carne e no entanto o teu texto é sublime; permite que me incline...

10:37 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

SEM PALAVRAS!!!!!
Elisa


Como reconhecer os sintomas da Doença de Alzheimer.
A expresão clínica da Doença de Alzheimer caracteriza-se pela progressiva decadência das funções cognitivas e por uma grave redução da autonomia pessoal e da adequação do comportamento. A evolução da sintomatologia é classicamente dividida em três fases:



Primeira fase
Tem início geralmente depois dos 60 anos. A deterioração afecta apenas as capacidades mentais.
Caracteriza-se pela presença de, pelo menos, dois ou mais dos seguintes sintomas: confusão em relação aos nomes e locais, reduzida capacidade para recordar rapidamente certas informações, dificuldade na gestão do dinheiro e em tomar decisões, falta de iniciativa, tendência para levar uma vida cada vez mais isolada. Em certos casos, o doente mostra-se desconfiado (em relação aos amigos, colegas) e revela uma emotividade ciumenta.
Duração: 2 a 4 anos
Mobilidade: normal
Capacidade mental: primeiras perturbações
Linguagem: normal

Segunda fase
Diminuição posterior da memória, agravamento do estado de confusão, dificuldade crescente no reconhecimento de amigos e familiares, dificuldade crescente na linguagem, incapacidade para construir pensamentos lógicos e coerentes. Diminuição progressiva das relações sociais. Aparecimento de problemas também na mobilidade física.
Duração: 2 a 10 anos
Mobilidade: primeiros problemas
Capacidade mental: confusão
Linguagem: difícil

Terceira fase
Os sintomas agravam-se até à incapacidade de se reconhecer a si próprio e aos familiares, incapacidade para cuidar de si próprio, afasia (perda total ou parcial da capacidade de usar ou compreender a linguagem), comportamento distraído, alheado e apático, variações do humor com alternância de estados de ansiedade e agitação e fases de depressão. Às dificuldades motoras agravadas, acresce a incontinência e dificuldade na deglutição, com redução de peso.
Duração: 1 a 3 anos
Mobilidade: problemas graves
Capacidade mental: deterioração
Linguagem: incapacidade

12:14 da tarde  
Blogger Poliedro said...

Quando as pessoas mexem com a sensibilidade pessoal dos afectos de uma forma tão delicada e encantadora inibo-me de fazer quaisquer comentários. Só queria dizer uma coisa, que desejava de todo o meu coração sensível, como penso que é, que não levasses a mal: VERDADEIRAMENTE ENTERNECEDOR de uma pessoa, de uma colega, que reterei sempre na minha consideração e estima. Uma lágrima que me cai desgovernada e imparável do canto do olho e que não consigo controlar não exprime e não permite que escreva mais. nada!

11:50 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Não consegui ficar indiferente a isto.

Era uma pessoa que me tratou com muito carinho. "Desculpa la Ana, ela era mais minha avó do que tua, eu vivi mais tempo com ela do q tu." Gosto muito da pessoa que me dirigiu estas palavras, mas elas magoaram-me, porque o amor não se esquece, principalmente do amor que foi violentamente cortado pela morte, ou apagado lenta e sofridamente pela doença.
É impossivel esquecer o afago do seu colo. A sua comida saborosa. O seu cuidado comigo, quando me dava banho, me limpava as feridas feitas das brincadeiras no terraço ou na rua, quando dizia "João não arrelies a menina" e quando me levava o leite quentinho à cama de manhã. Impossível esquecer o seu cantinho preferido da sala, que dava para ver da janela quem entrava em casa. O abraço que me dava quando eu chegava a sua casa. "Avó, tenho um cabelo na boca, tira..." e pacientemente ela ia tirar-mo da boca e dizia-me para não andar a levar brinquedos à boca, como todas as crianças fazem. Impossivel esquecer quando me levava pela mão às compras. E muitas outras coisas que volta e meia, me vêm à cabeça.
É estranho como as coisas acontecem, aquela pessoa, outrora neta também, filha, sobrinha, prima, mulher, mãe, avó, cheia de sentimentos e habilidades, se esvair da forma mais lenta possivel, dia para dia ver o esvaziamento do seu corpo, como se a alma o abandonasse lentamente, para ir renascer do outro lado. E aí estão as últimas gramas de peso perdido.

6:29 da manhã  

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