quinta-feira, dezembro 14, 2006

Há perda, sou contra!


O cadáver ainda não está aqui e já vejo ao longe a fila da oposição. Falar na perda por morte cria resistências, revoltas. Sabendo que é um dia a dia desde que o mundo é mundo. Até parece um muro de Berlim. Ainda se lembram dele?

Diante de um cadáver, as pessoas têm um momento de recusa e repulsa e lentamente vão aceitando. Os momentos contraditórios expressam os sentimentos, igualmente contraditórios, que a morte nos provoca.

Um morto está do outro lado, é diferente de nós que estamos vivos. Mas já foi um ser igual a nós, até uns momentos atrás. É certo que um momento qualquer vamos estar também do lado de lá. É o destino do qual todos temos um desejo enorme de fugir.

Por isso se acredita na imortalidade da alma. É o medo de estar do lado de lá.

Para os materialistas, bem mais comuns do que imaginamos, um morto é um “ausente”, alguém que não está entre nós para fins práticos e oficiais, mas permanece numa presença ambígua, perturbadora, até que o isolem de vez da superfície onde se agita a vida.

O amor não morre por causa da morte do amado, até reacende para de algum modo compensar uma perda que parece insuportável.

Muitas pessoas no entanto, ainda que meros conhecidos, ficam muito religiosas diante do morto e rezam por ele com um fervor inusitado. Ou será por eles mesmos que rezam, como se de algum modo essa súbita piedade valesse para prolongar a vida de quem reza?

A imagem da morte desperta uma curiosidade e um interesse que tem a ver com a insegurança que ela desperta, porque pode demorar ou não, mas algum dia vem.

Mesmo quem se mantém indiferente ou frio, na presença do morto, pode estar a manifestar um comportamento de acordo com a educação repressiva típica das pessoas de bem. Gente fina não se despenteia, não grita, não mostra o que sente.

Mas todos sem excepção quererem saber os detalhes, onde foi, como morreu, quais as causas. Querem saber por solidariedade, porque têm sentimentos, dirão alguns. É claro que têm sentimentos. A perda e a dor podem ser o predomínio para os mais próximos. Para os demais, predominam sentimentos que têm mais a ver com o vivo que olha o morto do que com o próprio morto. Não se trata de ser frio ou insensível. Trata-se de ser humano, simplesmente.

Porque o homem não foi feito para morrer.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Perdición




Perdición

He perdido una vida
pensando que eres posible la confiança
otra hubiera gaño
si lo hubiera compreendido mas cedo
he perdido una vida soñando
poder volar
como vuelan las golondrinas
en el campo
otra hubiera gaño
si hubiera aprendido a nadar como
los peces
he perdido una vida gritando
justicia
otra hubiera gaño
calando-me
para escuchar
he perdido una vida
procurando él amor
mil vidas hubiera gaño
amando simplemente

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Um Sonho Infantil que se perdeu

Um Sonho Infantil que se perdeu


Sempre sorri ao Mundo quando ainda de tenra idade!
Sempre o afaguei num abraço. Num gesto simples! Num sentimento profundo!
Chorei. Sorri. Amei. Desanimei-me. Alegrei-me.
Tudo isto, pela complexidade da incompreensão. Pela pureza que ia em mim.
Pelos sonhos belos soçobrados e inacabados.
Compreendi que nunca o iria compreender. O Mundo!
A minha irmã, companheira inseparável de uma vida, era de uma ternura e pureza deslumbrantes.
Chamava-se Paula, mas todos lhe chamávamos de a Nossa Menina. Para mim, a Minha Menina. A sua idade distanciava muito da minha. Quando fez a sua aparição ao Mundo, parece-me que ainda a vejo no berço, aquela encomendinha intocável, frágil.
Possuía uns olhos muito belos e cintilantes, faiscando de curiosidade.
O seu nascimento mudara completamente a minha existência.
Relembro a sua infância. A minha infância. Incontornáveis no tempo.
Lado a lado.

Recordo um boneco que era dela. Só dela! Que amava.

Eu olhava-os aos dois. Sim! Eu observava-os! Extasiado com a minha seriedade infantil. Com uma inocência desmedida. Atenta! Que parecia compreender. Entender!
E, a minha vida e a vida dela mereciam que eu entendesse. Que compreendesse!
Existia em nós uma cumplicidade que ninguém entenderia. Só quem a vivesse, como nós a vivíamos.

Recordo o boneco. Ela pusera-lhe o nome de Joni.
Para ela o Joni tornara-se um filho. Entrara na sua vida.
Um anjo que nascera para viver sempre com ela.
Embalava-o quando tinha sono. Alimentava-o quando tinha fome. Importava-se com ele quando necessitava do seu carinho. Do seu amor. Da sua protecção.

O Joni não tinha olhos. Não tinha braços. Não tinha pernas. Não tinha cabelo. Nem pés. Nem mãos.

Só uma cabeça metida num tronco, não descortinava como!

Não estranhei nada. Se ela o amava era porque devia ser bom. De certeza! Eu tinha a certeza que ele era bom! A minha irmã tornara-se para ele uma mãe. Eu achava aquela mãe, uma mãe dedicada. Uma mãe maravilhosa. Insubstituível! Única, pelo fervor das atenções para com ele.

Se ela gostava dele. Eu gostaria dele!

Aconteceu um dia.

Falaram-lhe de uma pequena cirurgia num hospital famoso de bonecas, na distante capital. O joni iria ser operado! Ele que não estava doente!
A minha doce irmã não disse que sim, nem que não. Não fez objecções a nada. Se era para o bem dele havia que fazer tudo.

O Joni foi operado.

A intervenção cirúrgica correu mal, ele não resistiu e acabou por sucumbir.

A minha irmã não chorou uma lágrima, mas sentiu um aperto interior que era só dela, do seu íntimo mais profundo.
Tudo tem o seu fim! Aquele marcou um capítulo importante na sua vida infantil.

Na minha vida infantil!

A partir daí, a minha irmã recusou todos os bonecos. Lindos! Esplendorosos! Bonitos! Normais! O seu que era tudo isto para ela e muito mais.

Afinal, algo perdurou em mim: a magia do seu encanto, o encanto da minha irmã e dos seus belos pensamentos e sentimentos em relação a tudo isto.

Em relação à vida e à morte.

A minha amizade por ela na sofrida luta pela vida, com Joni ou sem Joni.

Esta sensação de perda com um valor e uma importância afectiva desmedida, perdurou muito tempo na sua memória. Na minha memória transparente, pura e sem iniquidade, como deve ser a memória infantil!

By Poliedro.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

senti o mundo a desabar


...senti o mundo a desabar.

Diagnóstico: ALZHEIMER/ESCLEROSE MÚLTIPLA.

Quis respirar fundo e não consegui.
Tinha as mãos do mundo todo a sufocar-me, e sentia a ausência de um suporte para os meus pés!
Passou pela minha memória uma série de sinais estranhos, que eu vinha observando nos últimos meses. Mais grave que os desequilíbrios sucessivos, falhas na memória, desorientação espacial, afigurava-se o meu registo que ficou eterno, de olhar demente com que um dia, me fixou o rosto, no meio de um sorriso sem contrôle.
Os seus olhos amêndoados, com a íris raiada, entre o verde azeitona e o castanho claro, que aconchegavam a minha existência, que me davam segurança, quando menina, e que julgara eternos, poisaram em mim sem nexo, sem lógica, sem profundidade, descoordenados do pensamento, descontextualizados de tudo e de nada, despropositados, dementes, perdidos da postura racional e coerente de toda uma vida.
O meu cordão umbilical foi violentamente cortado nesse instante, e sangrei…sem qualquer intimidade, sem preparativos, sem cuidados assépticos, na presença de todos, completamente alheados, da gravidade da situação.
Um dia após outro, a perda de actividade, de faculdades, de afectos, entrelaçava-se, com a perda sucessiva do ser humano que me gerou, progressivamente incapaz de exercer autocrítica, de tomar decisões, de se organizar minimamente, e eu incapaz de me reorganizar, de estabelecer metas e objectivos, de renovar afectos, fortalecer empatias…
A autonomia, passou lentamente a dependência total.
A frescura da minha conduta converteu-se em amargura constante.
Os afectos formais foram-se desconstruindo, desmaterializando, numa dialéctica estranha de viver, perseguindo teimosamente um rumo com sentido negativo de involução.
Os papéis, estranhamente inverteram-se; de protegida passei a protectora, sem a mínima preparação, não conseguindo vestir bem essa roupagem, que assistia ao esvaziar de conteúdos de uma alma, que eu julgava e queria crer como inalterável.
As perdas sucessivas caracterizavam-se por uma bilateralidade de proporcionalidade inversamente descontrolada, tocando-se por vezes num eixo de simetria que eu tinha dificuldade em sustentar, levando-me a cometer erros de avaliação, permanentes e insuportáveis.
A minha sobrevivência diária à depressão, verificava-se apenas pela impossibilidade de enveredar por esse caminho. Nem esse caminho me restava.
Cada dia se tornou mais cinzento que o anterior, numa paleta monocromática, onde cada vez mais, predominava a ausência de luz, numa existência cada vez mais vegetal e dependente. Os negros cada vez mais negros, como se fosse possível alguma distinção entre eles, ou como se fosse possível o preto ser mais escuro que o negro ou vice versa.., e a primavera não despontou durante seis longos e marcantes anos, que se converteram em décadas de sofrimento, de perdas irrecuperáveis, num processo impossível de inverter, sem fim determinado, que nos invadia até aos ossos, até à alma, até ao centro dos nossos centros.
O olhar… esse passou a ser de um estranho, mudou de cor, de forma, de tamanho, de textura, de tempo, de amplitude, de configuração…
…e um dia gelou-me os dedos da mão, com a rigidez marmórea do último dia.
Espiral

terça-feira, dezembro 05, 2006

Perda/Sensação de perda

Em maior ou menor grau, todos já vivenciámos a sensação de perder algo. Algumas perdas são definitivas. Outras imaginamos que possam ser temporárias e que, quem sabe, talvez venhamos a recuperá-las. Nestes casos a esperança da recuperação, se mescla à dor da perda, numa simbiose curiosa.

Eu costumo distinguir a perda em si, da sensação dolorosa que a perda provoca em nós. Quantas vezes sentimos de forma tão profunda a perda de algo a que, supostamente, nem davamos tanto valor assim.

A sensação de perda, principalmente a definitiva é, realmente, uma sensação de impotência.

A sensação de que poderíamos ter feito algo que evitasse a perda o que nos permitiria não ficar com o estigma da culpa.

Todavia, as nossas perdas acabam também, num paradoxo somente aparente, fazendo parte de nós. Exatamente porque aquela dor nos temperou, nos deixou capazes de sobreviver, apesar da perda.

Assim, ela acaba sendo um ganho, de certa forma. Até as sensações de saudade e a nostalgia que acontecem quando nos lembramos do que perdemos, é algo intrínseco em nós que, indubitavelmente, marca a nossa personalidade. Mesmo que seja algo, aparentemente, sem muita importância consciente.

No subconsciente, permanece lá. Fazendo parte de nós.

Não há como negar. Nós somos o que o nosso passado fez com que fossemos, associado ao que desejamos ser no futuro.

O presente? Ora. O presente de alguns segundos atrás já virou passado e até esta mensagem que escrevi sem sequer rever, já é parte de mim que agora divido com vocês.

Ou será que já era antes?

Massai-Massai