sábado, setembro 30, 2006

TABUS

Talvez a maior das prisões que nos afetam sejam relativas ao que se convenciona chamar de tabu.

Tabus são como sacrilégios que jamais se pode sequer pensar em fazê-los. São barreiras intransponíveis. Autênticas barragens sobre as quais se alicerçam as construções da hipocrisia social.

Quem, afinal, estipulou o que é, ou não é tabu? Sob que critários? Quem determinou as regras?

Penso às vezes em tantos tabus que existiram antigamente e que hoje são simplesmente ignorados. Penso nos tabus que carregamos, que nos coagem, sabendo que, certamente, em alguns dias, meses, anos, ou séculos, pouco importa, também deixarão de sê-lo.

Então, porque não agora? O que nos impede de ignorá-los desde já?

Apenas porque somos nós que nos impedimos realmente. Nós cobramos de nós próprios a aceitação dos tabús, afinal. Nós somos os guardiôes dos "nossos" tabus

Massai-Massai

quarta-feira, setembro 27, 2006

PRISÕES (Rika)

Pintura de Paula Rego

segunda-feira, setembro 25, 2006

Carcereiros

São tantas as prisões que nos limitam.

Afinal, tal qual passarinhos que nas suas gaiolinhas douradas, com comidinha garantida, não querem nem pensar no que fariam se um dia a portinha da gaiolinha ficásse aberta, temos é medo da liberdade.

É o velho dilema: Segurança/liberdade.

O risco do mergulho se contrapondo à mediocridade do mundinho pequeno burguês.
Resta o sonho. As viagens virtuais sem risco.

No fundo, muito mais que vítimas das prisões, somos mesmo é carcereiros também. Não. Não apenas carcereiros dos outros, mas sim carcereiros de nós próprios o que é muito mais grave.

Nós temos a chave da gaiolinha, mas mesmo assim tememos abrir a portinha e sair voando. Até quando?

Massai-Massai

domingo, setembro 24, 2006

Confirmando a vanguarda do atraso

Em Portugal são praticados, pelo menos, 20.000 abortos ilegais por ano….. ( uma voz…)
Olho-me lá para o outro lado do espelho, para ver se acordei, ou estou decepcionado com o meu sonho. Espero encontrar Alice ou um Ás de Espadas qualquer, que me alivie desta mágua; que me fale mornamente ao ouvido, dizendo que ainda estou dentro do pesadelo e nada mais é, que um vulgar pesadelo, daqueles que basta acordar e verificar que a realidade é completamente diferente, e que supera o sonho em optimismo.
…projecto para novo referendo sobre aborto votado a 19 de Outubro …. ( a mesma voz que afinal me chega em off, espreitando logo pela manha, através do rádio despertador)
Sintonizo o meu pensamento no mundo de hoje, dos acordados, dos despertos... o tal mundo moderno, globalizado, liberal, que se pretende verde e ecológico... mas onde as mulheres continuam ligadas a algumas prisões, formando um nó de paradoxos desta sociedade consumista, versus democrática – cada homem, um voto!
O íntimo é impartilhável!
Abortar é já uma violência contra a mulher altamente penalizada, pelo seu íntimo, pela sua consciência, pelos seus valores, pela sua condição económica, pelo sofrimento solitário e silencioso, porque duplicar essa violência, em termos de penalização legal e pública? Porque é que ao trauma físico e psicológico do aborto, que cada mulher suporta, se deve somar sadicamente as condições humilhantes em que a maioria das mulheres o faz, com risco da própria vida e ainda a questão da ilegalidade imposta pela sociedade?
Como é possível apoiar a condenação das mulheres que abortam e de todos os familiares ou amigos que ajudam estas mulheres em desespero?
Que hipocrisia é esta, que nos conduz a situações completamente absurdas de os próprios tribunais se sentirem incomodados a condenar, as mulheres denunciadas por pessoas que se armam em detentores da verdade, e em vigilantes da moral e dos bons costumes, quando a maioria delas, só lhes restou essa saída?
Mais um referendo???
Continua-se a discutir sempre o mesmo, continua-se a apelar para o planeamento familiar, para a adopção, para a educação sexual, para a religião, para os movimentos a favor da vida, para o confronto entre ética e ciência,...para mais um referendo… pobres das mulheres!

quinta-feira, setembro 21, 2006

As minhas prisões

Muitas são as prisões que nos encarceram em padrões pré-estabelecidos, encarceram os nossos instintos, quais barragens e suas albufeiras, tolhem a nossa perspectiva e impedem-nos de ver o que está do outro lado da montanha. Prisões são as ideias feitas, os preconceitos, os costumes, as tradições. O conformismo, a mesquinharia, a intolerância, a pequenez.
Há muito que sinto o peso das bolas de ferro no meu tornozelo. Eu, que sempre fui livre-pensador e contemplativo, estava stressado e irritadiço, mais preocupado com o futuro e com a carreira do que com o presente, com a literatura, com o facto de ser feliz e procurar encontrar o pote de ouro no fim de um arco-íris de magia e sonhos.
Apetece-me dar um pontapé no balde da minha vida, largar a profissão, parar de me preocupar. Trabalhar pouco e ganhar pouco, mas pagar as minhas contas e ter tempo livre para voar pelas ruas, olhar os sons, cheirar as cores, provar a chuva.
Fiquei surpreendido com a quantidade de bolas de ferro que temos que serrar do tornozelo. Algumas ainda carrego. A maioria, todos nós tem de as carregar.
A ideia destes meus textos seria compartilhar com outras pessoas esse processo de libertação pelo qual ainda estou a tentar passar. E, para me libertar, é preciso antes saber do quê, então o processo de libertação passa, também, por uma consciencialização sobre as prisões que nos cercam e limitam. Tentar liberta-me delas, ou não, e seguir viagem.
Ser egocêntrico é inevitável. Ser vaidoso se calhar também o é. O desafio é ser egocêntrico sem ser egoísta. Ser vaidoso sem mostrar vaidade. Tento e tentarei falar sempre só de mim, num eu que pode ser ficcional ou não, só eu o saberei, pois falar no geral, ou falar para ti, leitor, seria defecar uma regra. Longe de mim.
Não espero que ninguém concorde comigo. Sou radical, utópico e tento levar as coisas até às últimas consequências. Tenho tentado, sim, causar impacto, gerar dúvidas, simpatias e empatias, começar discussões, levantar polémicas, remexer preconceitos e, sobretudo, encontrar iguais.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Prazer. Agora ou nunca

O que é o desejo?

Porque desejamos?

Desejo pressupõe querer algo. Importa em atitudes e sentimentos que nos levam à busca do objeto de desejo. Será isso a essência da vida? A busca do que se deseja?

Mas o que vem depois?

Claro. O gozo. O desfrutar do que desejámos tanto. Será este então o significado do prazer?

E o desejo após o gozo. Como fica?

Quer se queira ou não, após o gozo, aquele desejo some. Pode até surgir um novo e que tenha até o mesmo alvo, mas, sem dúvida é outro desejo. Diferente.

O meu drama é que o meu desejo é continuar sempre tendo desejo.

Se o meu desejo é ter desejo, o paradoxo impõe que jamais goze, posto que a satisfação não está propriamente em sentir o prazer realmente, mas em buscá-lo.

Repudio que o gozo deva ser algo obrigatório.

Eis porque gosto do prazer de aprender. Pressupõe um desejo que jamais se esgotará.

Tenham uma boa noite.