terça-feira, julho 11, 2006

Um verdadeiro inquieto


Escolhi Chirico para personalizar esta esquadria da era digital. Já não cheira a madeira, nem a verniz, muito menos a goma laka, e… grampos?... já nem para o cabelo!... uma esquadria, com a função de conter algo no seu interior, independentemente da amplitude dos seus ângulos, que deveriam ser rectos, mas que aqui… quem sabe? … podem ter outra dimensão, outro posicionamento, consoante as vontades.
Esta esquadria habita no espaço global de todos nós, limita para além dos limites, que lhe podem ser ortogonais ou não, ou seja, não limita coisa nenhuma! …limita-se a oferecer-nos um espaço para registar o desassossego que faz parte de nós.
Há cem anos atrás, Chirico era um caso invulgar… sentiria ele desassossego também? Provavelmente, sim!... representava cenários arquitectónicos, com grande rigor e rigidez, valendo-se dos estudos renascentistas da perspectiva rigorosa, vazios de gente, enigmáticos, melancólicos e silenciosos, explorando formas de luz e sombra, ricas na indução da introspecção – a dele e a nossa, meros receptores dessa forma de expressão, quase um século depois!
O que inquietava Chirico? O que o tornava um artista desassossegado?As suas praças, e ruas delimitadas por edifícios, tal como a perspectiva, só terminam no seu ponto de fuga, que fica, segundo dizem, no infinito; são equilibradas (?) com pequenos apontamentos que traduzem o sonho, o irreal, simbolizando por vezes o isolamento do ser humano em relação ao seu meio, transportando-o para o subconsciente feito de interrogações, de mistério e de emoções desconhecidas.
A convivência entre uma luva pendurada por um pionaise, uma esfera verde e um rosto em gesso de uma estátua antiga, enquadrada em volumes arquitectónicos, forma uma simbologia duma convergência de elementos heterogéneos, todos sem sentimentos e sem emoções, diversos, mas não necessariamente divergentes ou conflituosos.
Aquele muro alto que não chega a impedir a visão da locomotiva, lá ao longe, mas faz-nos mergulhar na essência do contrário, na alma ou no interior de nós. A locomotiva é introduzida como símbolo de movimento e de velocidade, rompe timidamente a estática da composição, opção que revela alguma ingenuidade, lançando-nos num oceano de perguntas sobre a humanidade.
“Ganda tanga”! estarão alguns a comentar. Claro, sabemos lá o que ele estaria a pensar quando organizava a composição e espalhava as cores?…mas podemos questionar, avançar suposições! Sabemos mais dele, do que ele suspeitaria acerca de nós. Sabemos que lançou as bases do surrealismo através de um caminho para além da realidade, chamado posteriormente de metafísico. Suspeitamos que não pintava ao acaso, e temos a certeza que era um verdadeiro inquieto.
Espiral

2 Comments:

Blogger Nilson Barcelli said...

É inevitável, um criativo vive sempre em desassossego.
E o Chirico, certamente, não era uma excepção...
Abraço.

8:44 da tarde  
Blogger Poliedro said...

Estou de acordo, o pensamento limita para além dos limites.
E, tal como dizes, o pensamento, se quizermos, poderá viver desassossegado, pronto na busca de um bem-estar desejado.
Só os sonhadores e os poetas conseguem viver, permanentemente, uma certa inquietação com o que a existência lhes apresenta inconformada.
Pensa que é um texto muito conseguido, informado e talentoso.
Parabéns!

12:43 da manhã  

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