sexta-feira, julho 14, 2006

Divagações poliedrícas potencialmente absurdas


O pintor não evidenciava um rosto. Pintava somente e isso bastava. O seu olhar distante, apagado e, pouco perceptível, não consentia a sua leitura. Nem a percepção do seu significado. No seu cérebro palpitava uma existência irreal, inconformada e, repleta, de divagações indefiniveis. Quando a obra surgia contemplava-a absorto, demoradamente, profundamente extasiado na magia das suas formas, como que planas, rumo ao inexplicável inteligível. Existia no seu interior algo que pulsava, algo que o agitava. Era, mas não existia. Não existia num corpo e denunciava uma mente que náo conseguia observar, como se a presença de imensas sombras o pudessem traír num silêncio incomodativo entranhado em si próprio, na profundeza da sua alma. As moscas à sua volta ganhavam vida, existiam, mas não o incomodavam. Simplesmente eram. Vagueava ao acaso. As fachadas das casas esbatiam-se à sua frente, mas não as via, formando um quadro no seu cérebro aprisionado pela luz da lua e, pelo crepúsculo, subitamente esquecido no tempo. Recordava, não se sabe como, aquele fugaz instante, aquele fugaz momento que não eram os seus. Estava onde nunca tinha estado. Porquê? Não sabia. Sentiu um arrepio provocado pelo seu presente anjo da guarda. O desenrolar da sua vida sentiu-o numa náusea cheia de pesadelos e emoções, que se esqueceram e se esmoreceram. A sua vida podia não ter sentido, impregnado de motivações contraditórias, inertes, que o tornaram descrente, apocalíptico e emudecido, por completo.
Por fim caminhou estereotipadamente, guiado por uma luz desmaiada, evitando assemelhar-se a um objecto. Conseguiu, apesar de acometido por impressões confusas, mas manifestamente incompreensíveis ao seu entendimento, tornado irreal e sonhador.

2 Comments:

Blogger Nilson Barcelli said...

Estas tuas divagações só são possíveis, aparentemente, porque serás pintor ou coisa parecida.
O teu texto não será absurdo, mas revelará o estado de espírito de um pintor. Mas como eu não tenho qualquer inclinação para a pintura, mesmo para a poliédrica, não faço a mínima ideia se será assim ou não.
Um abraço.

8:52 da tarde  
Blogger Poliedro said...

O meu estado de espírito é de uma constante presença poética. Agradeço o comentário que considero elogioso. Um pintor exprime-se através da sua pintura, que o faz viver, existir e lutar. Eu sou um ínfimo ser que, por vezes, esvazia sentimentos, emoções e, até, recordações que trago comigo. Nada mais!
Saudações

5:50 da manhã  

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