quarta-feira, julho 12, 2006

Desassossegadamente


Fragmento 6
"Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior."
Fragmento 41
"E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou."
"Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste."
"Não vejo, sem pensar."
"Não há sossego - e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter."


Escrevo sem saber o quê, como, nem onde. Escrevo solitariamente triste por estar solitário dentro de mim. Eu, ilha de pensador de ideias vagabundas, marginais sonhos, falas caladas no silêncio das noites, gemidos contidos, sorrisos aprisionados, gargalhadas abafadas.
Porque é que pensar tem de ser um acto solitário?
Porque é que os sonhos têm de ser marginais, inatingíveis pelo simples mortal?
Se eu falar para mim será que serei louco, ou será que sou surdo aos pensamentos?
Quem pode gemer pelo prazer de estar sozinho?
Vou sorrir e gargalhar das minhas ideias? Absurdo!
Traço a esquadria, marco os meus limites. Construo um muro onde me encerro. Solitário navego nas ondas deste mar de pensamentos vagos, vagueando de onda em onda, rumo ao destino traçado por um esquadro, régua e compasso.
Porque não consigo ter sossego?
Desinquieto-me!

2 Comments:

Blogger Nilson Barcelli said...

Se não somos uma boa companhia para nós próprios, provavelmente vivemos num mar de desassossego.
A solidão absoluta, tal como a que retratas, deve ser uma coisa lixada...
Abraço.

8:47 da tarde  
Blogger Poliedro said...

O que descreves com imensa beleza é também algo que vejo e sinto em mim. O silêncio...A solidão... A desinquietação...
Não estás sozinho, decididamente, podes crer? Tenho momentos em que sinto também este estado de alma. Não é crime. Faz pensar! Faz ponderar! Faz parar, para reflectir!
Lindo! Lindo! Adorei porque me revi nas tuas palavras sinceras e claras, demasiado claras e sinceras. Encontrei aqui algo que me diz respeito também.
Um abraço.

1:13 da manhã  

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