terça-feira, janeiro 09, 2007

Injusta Vida de Crianças da Rua


Injusta Vida de Crianças da Rua



As duas débeis silhuetas de pequenitas de pés nus, arranjando um colo para mais três irmãs, sabe-se lá como, suportavam a dor e a miséria, sentadas no chão do empedrado da rua, agora sem vivalma. Haviam mendigado uma côdea de pão para enganar a fome, a si e, às irmãs mais novas, desamparadas e entregues ao acaso da vida.

Não teriam mais de treze anos de amargura!

Parece que as revejo, deambulando como uma chama ardente e incómoda no meu pensamento.
Eram mais umas crianças da rua, como outras o são, retratando a podridão da sociedade. A podridão da vida. A podridão do Mundo. A podridão dos que se sentam nas douradas e aconchegantes poltronas do poder, sem sentir ou compreender.

Só sentir neles. Só compreender neles.

Há tristeza no coração grande e na alma enorme delas, pobres pessoas pequenas, singelas e doces, que agora abrem os olhares para fora delas, porque de pessoas se tratam, embora pequenas. Quanto mais sofredoras estas pessoas são por cresceram cedo demais, mais sonhos contêm nelas, enquanto sustentam o sorriso e a alegria de serem.

Entender o Mundo?

Quantos fantasmas inoportunos criados naquelas cabecitas puras e belas?

Simples, mas malfadadas pela complexidade do destino reservado.

Crianças incómodas da rua…

Todas elas haviam aparecido ao mundo, no desengano e no incoerente sentimento dum amor que existiu. Na verdade, existiu! Foi real e inequívoco, por ser intencionalmente existente! Um amor entegre com ardor e necessidade à vida…

Veio-me às ideias que a indiferença não habitava comigo e conheci uma história.

Uma história real feita de sonhos ternos e infantis! Várias histórias que ensinam…Que marcam… Que merecem ser atentamente escutadas…Compreendidas…
A sua história! A história delas!

Como se torna fácil conhecer uma história de desencanto, de dores sofridas que lhes vão lá dentro, bem dentro delas, e falam, falam, falam…sem fim? Sem sequer emitir um som para respirar alento nas palavras e alento para se dizerem perdidas.

Totalmente perdidas, mas onde o rancor não surge!

Eu conheci as suas histórias infortunadas e injustas porque elas as conheciam, quando não as deviam conhecer, porque não deviam ter acontecido com elas. Com a vida delas!
Absurdo de vida! – Pensei, desabafando comigo, meio incrédulo, meio trôpego, esfregando sôfrego e furiosamente as emoções mais impensadas, pela discórdia e revolta em me ter comprometido não aceitar as incongruências injustas escutadas, numa cantilena em voz desperta de crianças, que pareciam não ter fim.

Crianças da rua…!

Pai alcoólico…
Mãe prostituta…

As voltas que o Mundo dá! Difíceis. Incontornáveis. Irreversíveis.

Crianças totalmente perdidas, mas onde o rancor não surge. Belas! Ternas! Conformadas com o destino! Um destino incerto. Um destino que se vai tornar suado, duro! Mas, saberão? No seu íntimo, mas no seu mais profundo intimo, creio que saberão. Só que fazem por se calar…por ignorar…por ocultar…Mas, sim, sabem-no! Quase tenho a certeza!
Injustiças…

Ninguém foi o culpado! Talvez, a vida… Quem sabe?

Crianças da rua…

Como vos amo!

Só sei contar histórias…

Só me resta contar a vossa desafortunada história…por ser Real!

Isso, jamais esquecerei ou conseguirei calar!

Amo-vos! Só sei isso!

By Poliedro, numa noite sem sono. Janeiro de 2007.

sábado, janeiro 06, 2007

Transmontaneidade

Comecei este texto como comentário ao companheiro Asasparaque, dissertei, me envolvi e achei que deveria publicar com mais visibilidade.

Eram muito duros, esses tempos que tão bem descreves nas tuas palavras, sobre Trás-os-Montes*.

Morria-se cedo, com aquelas doenças que hoje achamos triviais, e que todos nos surpreendemos, quando alguém leva no passaporte para outra vida, essa chancela… sendo até motivo para vir na televisão, abrir inquérito, etc….

A esperança de vida era reduzida, e vivida com tantas limitações, quem nem conta se dava que afinal, se vivia!
O Estado nada assegurava, nada protegia,... era a mãe natureza que ia cuidando disso, ano após ano, renovando o ciclo da vida, mas, no meio de tanta fome, tanto frio e tanta miséria humana, torna-se difícil descrever e compreender o drama de cada família.

Injustiça?
Era palavra que nem habitava no vocabulário dessas gentes! O que lhes habitava nas emoções e sensações, era mesmo, a FOME, com as quatro letras bem desenhadas nos seus estômagos cada vez menores.


A luta pela sobrevivência era diária, e ia-se enganando a fome, com uma côdea de pão, às vezes uma malga de caldo e umas orações ao Altíssimo. Não havia princípios, caprichos ou projectos para o futuro, quando se fixava os olhos escancarados dos filhos, que nasciam um após outro; só se construía uma prioridade:

fazê-los vingar!

...muitos morriam “anjinhos”, e as outras crianças é que carregavam o caixão, até à cova, na eterna cumplicidade da miséria e na aceitação de uma infância por cumprir, mas solidária.


O próximo seria um deles!


Uns morriam sem crescer, outros morriam um pouco mais tarde que os primeiros, ganhando asas celestiais, na fatalidade da vida madrasta. Outros, os mais felizes, talvez, nem despesa davam: nasciam directamente para o céu.


A fome, era fome a sério.

FOOOOOOOMMMMMMEEEE!

Fome!

F-O-M-E!

Carência alimentar extrema. Aquilo que hoje, nem sabemos bem avaliar o que é, pois raramente experimentamos a sensação de estômago vazio por mais de 2 ou 3 horas! Não sabemos sequer configurar uma situação parecida. Chega-nos por vezes imagem de sítios distantes, de gentes de outra cor...

...mas o outro lado da África, fica tão longe!!!!


Andava-se descalço, fizesse calor ou frio! Os dedos dos pés por vezes, "engatinhavam" e convertiam-se numa chaga, de tanto gelo pisar. As crianças aprendiam a trabalhar, logo que saíam do colo da mãe, para dar a vez ao recém nascido.

Iam para o pasto; junguiam as vacas -operação complicada, pois nem lhes chegavam aos cornos, quanto mais colocar-lhes o jugo e as molhelhas, sem receberem umas valentes cornadas!

...aconchegavam-se, deitando-se ao lado de uma ovelha mais tolerante, absorvendo um pouco de calor, da sua lã, sob o olhar silencioso, mas não menos sofrido, dos que os “botaram” ao mundo.


O leite era bebido da teta da cabrita, quando ela paria, e mesmo assim, eram as sobras que a cria deixava. E isto era quando tudo corria bem. Só que, era raro tudo correr bem!


Fraldas?

Não existiam!

Usavam-se calças de rabo aberto, onde os excrementos escorriam e caíam para o exterior.
Impressiona ler isto?

... imaginem senti-lo em dias de neve, sincelo e de muito, muito frio!!!… era assim que as crianças aprendiam a controlar as suas necessidades fisiológicas básicas!

Aprendiam sofrendo!

Sempre! … de geração em geração!


Nada se deitava fora, tudo se aproveitava! até a temperatura da urina e da bosta dos animais, e da sua posterior decomposição, ajudava a aquecer as modestas casas ou os abrigos onde viviam,… ou pensam que era moda, viver junto dos animais?



Morria-se de pneumonia, de febre tifóide, de tétano, de tuberculose, de gripe, de anginas…

As enfermidades físicas, não se curavam, cortavam-se ou talhavam-se.

Talhava-se o coxo, cortava-se o ar, o mau olhado e a ziripela, levantava-se o ventre, rezava-se o sarampelo (sarampo, sarampelo, sete vezes vem ao pelo, põe-lhe papel e água benta) e padecia-se de trasorelho uma infinidade de dias. As enfermidades da alma, temiam-se e partilhavam-se numas “alminhas”, em hora de maior aflição.

Um milagre acontecido, mandava-se pintar a cena a um habilidoso e se oferecia ao Sr. do Calvário, em sinal de agradecimento, e para a próxima não ser pior.
Nascia-se e morria-se em casa, e isolava-se para sempre os leprosos, numa aldeia distante, para os lados de Mira.


Os loucos se amarravam!


Esses tempos cumpriram bem a chamada selecção natural. Sem dúvida!
Poucos morriam de cancro, de alzheimer ou de esclerose múltipla, pois não tinham sequer o privilégio de lá chegar. Eram raros os que tinham tempo para ultrapassar os cinquenta.


Quando penso em injustiça, penso em guerras laborais. Penso na falsa democratização do ensino, penso no desemprego, na desigualdade de oportunidades, nas frágeis e incompatíveis relações de produção, penso em países invadidos por outros, que se sentem no direito de o fazer, ou seja, configuro os extremos do que é ou não justo, numa dimensão que já nem engloba estas situações limite, tão vulgares na transmontaneidade de há umas décadas atrás, e que se caracterizavam, pela precaridade extrema, pela não existência de tudo e de nada, pela miserabilidade consciente a todos os níveis,… pela dureza granítica de sentir!


Esta realidade provavelmente, e felizmente, será estranha a muita gente, mas afinal não precisamos de recuar mais de 3 décadas. Ela está a um passo atrás de nós, espreitando-nos ainda!

O mau, não se distinguia do péssimo, e o absolutamente insuportável, era o vivido no dia a dia.

Apenas há 3 décadas, existiam pessoas iguais a nós, que esperavam que os vizinhos acendessem o lume, para pedir o lume emprestado, evitando que se gastasse um fósforo, pois o dinheiro era muito caro!

Acho que injustiça mesmo, é quando alguém vem lembrar as vantagens do antes, a justiça dos governantes que multiplicavam a fome, e defendiam o vinho como meio de matar a fome ao povo.

Injustiça, é apelar ao “antigamente é que era bom”.


Esperemos que nunca mais ninguém tenha de provar sequer o antigamente, muito menos vivê-lo!
Já é mau recordá-lo!
Para a frente é que se caminha!




*Trás-os-Montes - terra de muitos montes, virados de costas para o mar, de invernos e infernos.
Refiro-me às terras frias de solos pobres resultantes de clivagens e erosões milenares do Alvão e do Palão, sem terra preta para cultivo, por onde Cristo não passou, e onde os penedos serviram para avistar mais longe e construir certos dias de esperança.

Pastor



(Foto de Georges Dussaud in Tras-os-montes)

1954...é assim, a vida de pastor.
O granito por companhia e a solidão por companheira
A missa do domingo, o unico espetaculo da semana
Por vezes, la vem um ou outro lobo trocar umas palavras
Ou roubar um cordeiro
é consoante
No primeiro domingo de Setembro
a festa em Valpaços
O fogo de artificio como unica promessa de felicidade
vinda dos céus
A jeira não dava para comer
Cegadas, so uma vez por ano
Um dia o "patria" la me levou para o ultramar
em Tras-os-montes
os saltões eram verdes
mesmo assim recusei
o primeiro prato de camarões
na camioneta que me levou para as matas de café
ia também
a esperança
So regressei à aldeia
a finais de 75
o céu continuava insipido
depois de 3 dias imigrei para França
até hoje
dia em que duas palavras resumem uma vida inteira

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Transmontano

Pastor de penedos

São quase seis da manhã
Ainda se vê a estrela do pastor
Tenho sete anos
O pai morreu no principio do inverno
Pneumonia
Dizem que ja havia medicamentos
Mas como poderia
Ter pago o médico
E a farmacia
Sem tirar o pão da boca
Dos meus cinco irmãos mais novos?
O mais velho, o Julio, que tinha então
Dois anos mais do que eu
Ficou com o rebanho
Andava pelo monte
Entre penedos e lobos
A noite inteira
Agora ia-lhe levar, à Cotovia
Uma codea de centeio
Uma "mãoecheia" de figos
E uma pinga
Enquanto o Julio dormia
Era eu que cuidava do gado
Se fosse, chegaria atrasado
A escola
Assim, tirei apenas a terceira classe
Depois...
O Senhor Padre Cura bem queria
Que fosse para Alcobaça
Dizia que não teria
Qualquer dificuldade mais tarde
Para entrar no seminario
Mas,
Com o Julio atras das ovelhas
E a mãe com cinco crianças ao colo
Quem iria sachar as batatas
Amanhar a vinha
E cegar o pão?
A noitinha,
Depois de tocar as vacas do lameiro,
Passarei pela capela
Do Senhor dos Aflitos.
Pedirei apenas que arranje algum fardo
para levar até Feces de Abajo
Dizem que a Guardia Civil
Atira sem prevenir
No entanto,
Sempre sera melhor
Morrer no contrabando
Que morrer de fome.

(Tinhela
Concelho de Valpaços
1936)

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Há perda, sou contra!


O cadáver ainda não está aqui e já vejo ao longe a fila da oposição. Falar na perda por morte cria resistências, revoltas. Sabendo que é um dia a dia desde que o mundo é mundo. Até parece um muro de Berlim. Ainda se lembram dele?

Diante de um cadáver, as pessoas têm um momento de recusa e repulsa e lentamente vão aceitando. Os momentos contraditórios expressam os sentimentos, igualmente contraditórios, que a morte nos provoca.

Um morto está do outro lado, é diferente de nós que estamos vivos. Mas já foi um ser igual a nós, até uns momentos atrás. É certo que um momento qualquer vamos estar também do lado de lá. É o destino do qual todos temos um desejo enorme de fugir.

Por isso se acredita na imortalidade da alma. É o medo de estar do lado de lá.

Para os materialistas, bem mais comuns do que imaginamos, um morto é um “ausente”, alguém que não está entre nós para fins práticos e oficiais, mas permanece numa presença ambígua, perturbadora, até que o isolem de vez da superfície onde se agita a vida.

O amor não morre por causa da morte do amado, até reacende para de algum modo compensar uma perda que parece insuportável.

Muitas pessoas no entanto, ainda que meros conhecidos, ficam muito religiosas diante do morto e rezam por ele com um fervor inusitado. Ou será por eles mesmos que rezam, como se de algum modo essa súbita piedade valesse para prolongar a vida de quem reza?

A imagem da morte desperta uma curiosidade e um interesse que tem a ver com a insegurança que ela desperta, porque pode demorar ou não, mas algum dia vem.

Mesmo quem se mantém indiferente ou frio, na presença do morto, pode estar a manifestar um comportamento de acordo com a educação repressiva típica das pessoas de bem. Gente fina não se despenteia, não grita, não mostra o que sente.

Mas todos sem excepção quererem saber os detalhes, onde foi, como morreu, quais as causas. Querem saber por solidariedade, porque têm sentimentos, dirão alguns. É claro que têm sentimentos. A perda e a dor podem ser o predomínio para os mais próximos. Para os demais, predominam sentimentos que têm mais a ver com o vivo que olha o morto do que com o próprio morto. Não se trata de ser frio ou insensível. Trata-se de ser humano, simplesmente.

Porque o homem não foi feito para morrer.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Perdición




Perdición

He perdido una vida
pensando que eres posible la confiança
otra hubiera gaño
si lo hubiera compreendido mas cedo
he perdido una vida soñando
poder volar
como vuelan las golondrinas
en el campo
otra hubiera gaño
si hubiera aprendido a nadar como
los peces
he perdido una vida gritando
justicia
otra hubiera gaño
calando-me
para escuchar
he perdido una vida
procurando él amor
mil vidas hubiera gaño
amando simplemente

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Um Sonho Infantil que se perdeu

Um Sonho Infantil que se perdeu


Sempre sorri ao Mundo quando ainda de tenra idade!
Sempre o afaguei num abraço. Num gesto simples! Num sentimento profundo!
Chorei. Sorri. Amei. Desanimei-me. Alegrei-me.
Tudo isto, pela complexidade da incompreensão. Pela pureza que ia em mim.
Pelos sonhos belos soçobrados e inacabados.
Compreendi que nunca o iria compreender. O Mundo!
A minha irmã, companheira inseparável de uma vida, era de uma ternura e pureza deslumbrantes.
Chamava-se Paula, mas todos lhe chamávamos de a Nossa Menina. Para mim, a Minha Menina. A sua idade distanciava muito da minha. Quando fez a sua aparição ao Mundo, parece-me que ainda a vejo no berço, aquela encomendinha intocável, frágil.
Possuía uns olhos muito belos e cintilantes, faiscando de curiosidade.
O seu nascimento mudara completamente a minha existência.
Relembro a sua infância. A minha infância. Incontornáveis no tempo.
Lado a lado.

Recordo um boneco que era dela. Só dela! Que amava.

Eu olhava-os aos dois. Sim! Eu observava-os! Extasiado com a minha seriedade infantil. Com uma inocência desmedida. Atenta! Que parecia compreender. Entender!
E, a minha vida e a vida dela mereciam que eu entendesse. Que compreendesse!
Existia em nós uma cumplicidade que ninguém entenderia. Só quem a vivesse, como nós a vivíamos.

Recordo o boneco. Ela pusera-lhe o nome de Joni.
Para ela o Joni tornara-se um filho. Entrara na sua vida.
Um anjo que nascera para viver sempre com ela.
Embalava-o quando tinha sono. Alimentava-o quando tinha fome. Importava-se com ele quando necessitava do seu carinho. Do seu amor. Da sua protecção.

O Joni não tinha olhos. Não tinha braços. Não tinha pernas. Não tinha cabelo. Nem pés. Nem mãos.

Só uma cabeça metida num tronco, não descortinava como!

Não estranhei nada. Se ela o amava era porque devia ser bom. De certeza! Eu tinha a certeza que ele era bom! A minha irmã tornara-se para ele uma mãe. Eu achava aquela mãe, uma mãe dedicada. Uma mãe maravilhosa. Insubstituível! Única, pelo fervor das atenções para com ele.

Se ela gostava dele. Eu gostaria dele!

Aconteceu um dia.

Falaram-lhe de uma pequena cirurgia num hospital famoso de bonecas, na distante capital. O joni iria ser operado! Ele que não estava doente!
A minha doce irmã não disse que sim, nem que não. Não fez objecções a nada. Se era para o bem dele havia que fazer tudo.

O Joni foi operado.

A intervenção cirúrgica correu mal, ele não resistiu e acabou por sucumbir.

A minha irmã não chorou uma lágrima, mas sentiu um aperto interior que era só dela, do seu íntimo mais profundo.
Tudo tem o seu fim! Aquele marcou um capítulo importante na sua vida infantil.

Na minha vida infantil!

A partir daí, a minha irmã recusou todos os bonecos. Lindos! Esplendorosos! Bonitos! Normais! O seu que era tudo isto para ela e muito mais.

Afinal, algo perdurou em mim: a magia do seu encanto, o encanto da minha irmã e dos seus belos pensamentos e sentimentos em relação a tudo isto.

Em relação à vida e à morte.

A minha amizade por ela na sofrida luta pela vida, com Joni ou sem Joni.

Esta sensação de perda com um valor e uma importância afectiva desmedida, perdurou muito tempo na sua memória. Na minha memória transparente, pura e sem iniquidade, como deve ser a memória infantil!

By Poliedro.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

senti o mundo a desabar


...senti o mundo a desabar.

Diagnóstico: ALZHEIMER/ESCLEROSE MÚLTIPLA.

Quis respirar fundo e não consegui.
Tinha as mãos do mundo todo a sufocar-me, e sentia a ausência de um suporte para os meus pés!
Passou pela minha memória uma série de sinais estranhos, que eu vinha observando nos últimos meses. Mais grave que os desequilíbrios sucessivos, falhas na memória, desorientação espacial, afigurava-se o meu registo que ficou eterno, de olhar demente com que um dia, me fixou o rosto, no meio de um sorriso sem contrôle.
Os seus olhos amêndoados, com a íris raiada, entre o verde azeitona e o castanho claro, que aconchegavam a minha existência, que me davam segurança, quando menina, e que julgara eternos, poisaram em mim sem nexo, sem lógica, sem profundidade, descoordenados do pensamento, descontextualizados de tudo e de nada, despropositados, dementes, perdidos da postura racional e coerente de toda uma vida.
O meu cordão umbilical foi violentamente cortado nesse instante, e sangrei…sem qualquer intimidade, sem preparativos, sem cuidados assépticos, na presença de todos, completamente alheados, da gravidade da situação.
Um dia após outro, a perda de actividade, de faculdades, de afectos, entrelaçava-se, com a perda sucessiva do ser humano que me gerou, progressivamente incapaz de exercer autocrítica, de tomar decisões, de se organizar minimamente, e eu incapaz de me reorganizar, de estabelecer metas e objectivos, de renovar afectos, fortalecer empatias…
A autonomia, passou lentamente a dependência total.
A frescura da minha conduta converteu-se em amargura constante.
Os afectos formais foram-se desconstruindo, desmaterializando, numa dialéctica estranha de viver, perseguindo teimosamente um rumo com sentido negativo de involução.
Os papéis, estranhamente inverteram-se; de protegida passei a protectora, sem a mínima preparação, não conseguindo vestir bem essa roupagem, que assistia ao esvaziar de conteúdos de uma alma, que eu julgava e queria crer como inalterável.
As perdas sucessivas caracterizavam-se por uma bilateralidade de proporcionalidade inversamente descontrolada, tocando-se por vezes num eixo de simetria que eu tinha dificuldade em sustentar, levando-me a cometer erros de avaliação, permanentes e insuportáveis.
A minha sobrevivência diária à depressão, verificava-se apenas pela impossibilidade de enveredar por esse caminho. Nem esse caminho me restava.
Cada dia se tornou mais cinzento que o anterior, numa paleta monocromática, onde cada vez mais, predominava a ausência de luz, numa existência cada vez mais vegetal e dependente. Os negros cada vez mais negros, como se fosse possível alguma distinção entre eles, ou como se fosse possível o preto ser mais escuro que o negro ou vice versa.., e a primavera não despontou durante seis longos e marcantes anos, que se converteram em décadas de sofrimento, de perdas irrecuperáveis, num processo impossível de inverter, sem fim determinado, que nos invadia até aos ossos, até à alma, até ao centro dos nossos centros.
O olhar… esse passou a ser de um estranho, mudou de cor, de forma, de tamanho, de textura, de tempo, de amplitude, de configuração…
…e um dia gelou-me os dedos da mão, com a rigidez marmórea do último dia.
Espiral

terça-feira, dezembro 05, 2006

Perda/Sensação de perda

Em maior ou menor grau, todos já vivenciámos a sensação de perder algo. Algumas perdas são definitivas. Outras imaginamos que possam ser temporárias e que, quem sabe, talvez venhamos a recuperá-las. Nestes casos a esperança da recuperação, se mescla à dor da perda, numa simbiose curiosa.

Eu costumo distinguir a perda em si, da sensação dolorosa que a perda provoca em nós. Quantas vezes sentimos de forma tão profunda a perda de algo a que, supostamente, nem davamos tanto valor assim.

A sensação de perda, principalmente a definitiva é, realmente, uma sensação de impotência.

A sensação de que poderíamos ter feito algo que evitasse a perda o que nos permitiria não ficar com o estigma da culpa.

Todavia, as nossas perdas acabam também, num paradoxo somente aparente, fazendo parte de nós. Exatamente porque aquela dor nos temperou, nos deixou capazes de sobreviver, apesar da perda.

Assim, ela acaba sendo um ganho, de certa forma. Até as sensações de saudade e a nostalgia que acontecem quando nos lembramos do que perdemos, é algo intrínseco em nós que, indubitavelmente, marca a nossa personalidade. Mesmo que seja algo, aparentemente, sem muita importância consciente.

No subconsciente, permanece lá. Fazendo parte de nós.

Não há como negar. Nós somos o que o nosso passado fez com que fossemos, associado ao que desejamos ser no futuro.

O presente? Ora. O presente de alguns segundos atrás já virou passado e até esta mensagem que escrevi sem sequer rever, já é parte de mim que agora divido com vocês.

Ou será que já era antes?

Massai-Massai

quinta-feira, novembro 16, 2006

Guardador de silêncios

Muitas vezes eu me vi triste por não poder guardar o tempo..
E várias vezes sentia como se estivesse a tentar segurar areia fina nas mãos.
E os bons momentos jamais voltariam


Mas então percebi que pra cada momento da vida...Eu estava a ouvir música.
E com essa mania de ouvir música eu consegui uma proeza.
Eu parei o tempo.


Simplesmente porque a música marca e pára o tempo..
Regista o momento, uma música para cada momento..
Dessa forma quando escuto música me transporto .


Me transporto para épocas antigas, Conseguindo assim...
De uma certa forma reviver o meu passado..
As coisas agora não ficam mais tão perdidas.


Através da música, fecho os olhos e me lembro exactamente
do que estava sentindo naquele momento... Bom ou ruim.
Percebendo assim que temos uma maquina do tempo
Tão simples e fácil de se usar.


O combustível dessa máquina e sua imaginação..
A estrada é uma canção.
E o guia, é o coração....
O medo feito silêncio

quinta-feira, novembro 09, 2006

Triangulo rectangulo contido em um semi-circulo


Primeiro, nada mais era que um segmento, de direita, deitado horizontalmente, em sinal de submissão.
Pensei que, para um dia alcançar o paraiso, seria necessario elevar uma perpendicular a partir do extrêmo do segmento, extrêmo até então considerado como uma das metas da vida.
Pensei.
No entanto o esboço de vertical, apareceu rapidamente como pouco fiavel, em perpétuo desiquilibrio, pois, contra vento e marés, o globo terrestre continuava a girar, produzindo um efeito perturbador, no verticalismo de uma linha direita sem solidos alicerces para um definitivo équilibrio estatico.
Por uma questão de equidade, confiei as minhas duvidas ao compasso, unica garantia de equidistancia entre um centro que sempre fora obra do destino e uma periferia obtida pela graça da rotação.
Algures, no branco do papel, coloquei a ponta metalica e aguda do instrumento, confiando como imaginado anteriormente, o centro da minha razão à sorte. Regulo então a distancia entre as pontas do dito de tal maneira que ao desencandear a rotação do compasso, a linha curva obtida cortasse a horizontal, primeiro em um ponto A do seu comprimento, depois em um ponto B correspondente au extrêmo do segmento considerado. Entre A e o centro do circulo, tracei uma nova direita, mas constactei que não somente era obliqua, como também tornava a cortar o circulo primitivo em um ponto C, um pouco mais acima.
Elevava-me.
Estava pois em bom caminho.
Conclui que o segmento que, passando pelo centro do circulo, cortava este em dois pontos distinctos e opostos, nada mais poderia ser que o seu diametro .
Foi assim que no semi-circulo do meu silêncio, nasceu o triangulo rectangulo da minha esperança.
Uma horizontal finalmente, também pode vir a ser, um dos lados da encosta que nos aproxima dos céus.

quarta-feira, novembro 08, 2006

O que diz o silêncio



Venho escutar o silêncio
Dos teus labios que recusam
Os meus beijos
Do teu ventre
Que recusa a semente
Dos meus cravos
Dos meus sonhos
Tão somente

Venho com a corda ao pescoço
Tal Egas Moniz
Rendido ao charme mudo
Dos teus olhos
Ao sorriso surdo que enfeita
A tua face
Menina, mulher e mãe
Sempre direita

Venho talvez queimar-me
Tal insecto
Voador
Sem asas
Sem destino
Queimar-me corpo e alma
Em tua mão
Estendida suave, doce
É o pão
Que alimenta
O palpite
Do meu peito

Sinfonia do Silêncio

Queria tocar-te como se fosses um piano
Passear as minhas mãos no teu corpo
Sentir-te um arrepio
E fazer música dos teus gemidos
Compor-te em sinfonia perfeita
Conduzir-te em orquestra
Num ritmo triunfal.
Em sintonia com a beleza
Correr no tempo e no espaço
Num ritmo triunfal.
E fez-se a sinfonia do silêncio

terça-feira, novembro 07, 2006

Fragmento que ficou por editar devido a silênciosa implicancia digital.

Os fragmentos do silêncio

Silencio-me, e decido-me a pensar o silêncio.
Palavra simétrica, com dois extremos, com um centro de gravidade a pressionar de forma ortocêntrica, tornando-a numa palavra côncava.. de textura suave, como um lenço de cetim numa manha de primavera, e leve….., suspensa no espaço, de movimento levitante. Será que existe o silêncio?
Questiono-me se alguma vez o toquei… ou senti a ausência de som, feito um vazio de sinais sonoros que cruzam e se adensam na nossa dimensão.
Desconhecendo a sua existência, percepciono um afecto bem estruturado que se liga a ele. O gostar de algo que talvez não exista. Algo intimamente ligado a mim, no antes de existir e no depois do ter existido como ser humano. O que é a morte, senão um silêncio prolongado eternamente?
No entanto considero que o silêncio, talvez seja uma das minhas facetas mais acentuadas, faz visceralmente parte de mim, e ao me envolver tão profundamente e de forma tão continuada, assume tonalidades contraditórias ao significado etimológico, que me leva a questionar a sua existência. O silêncio converte-se em cenário, ou pano de fundo aos diálogos, que construo de mim para mim, onde funciono como emissor e receptor simultâneos, e que são permanentes, diversificados, sem sequência lógica; em contrapartida são construtivos, criativos, dinâmicos, e essenciais para eu conseguir sobreviver e crescer. Mas terá isto a ver com o silêncio de faceta acústica? Afinal quantos silêncios existem?
… o silêncio da ausência,
… o silêncio redobradamente feminino,
… o silêncio da dúvida,
… o silêncio da certeza,
… o silêncio por um minuto,
… o silêncio da espera,
… o silêncio ignorado,
… o silêncio profundo,
… o silêncio dos inocentes,
… o silêncio cobarde,
… o silêncio obscuro,
… o silêncio das naturezas mortas,
… o silêncio das borboletas.
… o silêncio do desapontamento.
... o silêncio esquisofrénico.
… o silêncio da fé.
… o silêncio com palavras.
… o silêncio da madrugada


… os fragmentos do silêncio.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Os Momentos mais Belos Feitos de Silêncio

Os Momentos mais Belos Feitos de Silêncio

Sempre me vi e revi entregue à minha melancolia existencial e, assumidamente, à suposta incompreensão e parasitismo do que aparentemente sou. Nunca me olhei com ambições, próprias do ser humano comum, mas com ideais e valores a ele inerentes que defendo convicta e empenhadamente. Nunca fui do género de existir para agradar. Não! Não agrado a toda a gente, só para agradar e ficar feliz comigo próprio e com eles. O carácter e a tranquilidade do meu interior é só comigo e guardo-o como um tesouro e uma relíquia muito valiosa desde pequeno. Sou sensível ao que me rodeia, apesar de não pertencer a ninguém em particular. A Beleza e a Felicidade não as compro, vivo-as à minha maneira, sem intromissões de quem quer que seja. Definem-me como uma pessoa peculiar, que penso ser errado e incorrecto aos seus olhos, apesar de preocupar-me à minha maneira, com o bem-estar e a felicidade dos outros com sinceridade absoluta, verdadeira.. Sou normal como a vulgaridade das pessoas! Enfim, sou pouco sociável, mas solidário e, tentando compreender a forma natural das pessoas, das coisas e do Mundo! Sei que só se vive de uma vez só, mas essa vida, será como a vejo, como a sinto, como a penso e como me emociona. Não a desperdiço, podem crer! Tudo ganha vida à minha volta quando descortino e percepciono atentamente o silêncio e a sua magia. A sala! Os móveis! A luz! As paredes! Os minúsculos insectos! Entranham-se em mim e fazem-me sobreviver, na pacatez dos meus intensos sonhos que se instalam, sem avisarem ou pedirem licença! Quando escrevo ou reflicto, as palavras bailam-me com emoção, pela forma exacta e excessivamente séria como saem do meu pensamento. Os textos e as ideias acontecem naturalmente, expressando o que vejo e revejo, incessante e nitidamente. Assolam-me, como é natural, momentos felizes e belos, porque os tenho escondido numa caixinha bem secreta, guardada dentro de mim! Bem guardados, porque vertem lágrimas sentidas de felicidade e encanto quando surgem. Pura ternura que coabita comigo! Esvaem-se num êxtase único de segredo pela sensação agradável de me pertencerem e darem sentido à minha pouco preenchida vida. São sonhos acordados, vigilantes, protectores! São lágrimas expressivas, plenas, intransmissíveis! A vida é um ciclo perfeito de emoções. Há o nascimento. Há a vida e, depois, o seu término. Nesse percurso há de tudo e, a tudo temos de nos agarrar, com garra e coragem, quase de um poderoso leão. É assim! Tem que ser assim! Talvez, exista Ele a proteger-nos, a vigiar-nos, ao nosso lado pronto a intervir. Será que Lhe podemos entregar a vida? Para muitos, a verdade é essa, inequívoca, sentida, única! Sinceramente, eu não sei! Como poderia eu saber? Existo somente! Tento viver unicamente! Com momentos belos e felizes, que tenho e acredito. Plenamente! Mas, acreditem. São meus! Só meus!

O Silêncio

O Silêncio

Gosto de ouvir o silêncio. Sim! Atentamente! Escuto-o! Os outros? As pessoas?Não sei. Sinceramente, não sei. É fascinante porque parece brincar comigo.Gosto de o manusear, escutá-lo, senti-lo quando entra em mim e me absorve intencionalmente com fascínio. Não! Não me atemoriza. Não estou só.Tenho-o a ele, só para mim. Olho à minha volta e tudo é feito de silêncio.Até a casa está a pactuar com ele e comigo, ajuda-o, ajuda-me. Consigo pensar nas coisas mais incríveis e fantasmagóricas feitas de silêncio porque, lado a lado, vou com ele para onde ele me leva. Todos estão mudos, menos ele, que se expressa em mim e comigo na avalanche de sonhos e encantos da vida. É por isso que o escuto em tudo o que me rodeia, em tudo que vejo e faz parte carinhosamente e amigavelmente da minha existência. Sei que me compreende, porque eu compreendo -o. Não sei se o compreendo, mas ele, tenho a certeza inequívoca que me compreende. Respeito-o! A telefonia calou-se. As pessoas que amo deitaram-se. Resta-me escutá-lo e cavalgar na ilusão de que, de tempos em tempos, só eu e ele, o silêncio e eu, unidos, podemos magicamente sonhar na quietude dos instantes, das horas, do descanso dos relógios que pararam para nos dar um espaço de dignidade. O silêncio tem dignidade! Acredito na dignidade e na majestosa importância dele, do silêncio. Podia-se estudar.Aparecer nos manuais escolares e nos manuais da vida, mas, penso eu, que iriam maltratá-lo, ignorá-lo, não o compreender. Quem é que compreende o silêncio? Só o compreende quem consegue escutá-lo, amá-lo, estudá-lo, enfim, vivê-lo! Vivê-lo, plenamente. Não! Acreditem que não tenho nenhum medo de insanidade mental em mim, só por adorar, compreender, estudar e amar o silêncio. Se a tivesse, diria. Mas, primeiro dir-lhe-ia a ele. Ele estava em primeiro lugar, podem crer. Como ele gosta, não lhe digo. Absorvo-o.Delicio-me com ele e com a tranquilidade que me envolve e que ele me dá.Faz-me pensar em coisas incríveis, boas, sinceras, únicas, verdadeiras. Entro num mundo que me faz sentido. Um mundo de canteiros de flores, jardins, aventura, música, poesia, imensamente bela e resplandecente aos meus olhos.Depois, foi feito para amar sem ruído, numa atitude única de bem-estar e conforto todos os que o escutam, sem protestos, sem exigências. Deixem-no levá-los, porque estão bem entregues, acreditem! Não! Ele não faz mal. Faz pensar. Só pensar! E pensar é bom. Pensar, faz acreditar que estamos vivos e compreendemos os mistérios da vida. Os mistérios do amor. Da intransigência violenta. Da hipocrisia egoísta. De quem, por não compreender, nos quer perturbar, sem ouvir, uma única vez, o silêncio. Ouvir, uma vez só! Depois, tudo poderá acontecer, porque podem gostar dele, da sua calma, do seu afago, do seu discernimento de poderem livremente pensar.Eu adoro escutar o silêncio! Sinto-o! Compreendo-o! Faz parte de mim!
É como um afago sincero! Uma carinhosa melodia escutada, dificilmente transmissível.
Só para mim! Acreditem, porque é!


terça-feira, outubro 17, 2006

Ainda bem que somos diferentes, só assim faz sentido!

René Magritte

Prisões livremente abertas

Na minha liberdade de escrever o que me vai na gana, fruto de revoluções pernanentes, procuras insistentes, dar e baralhar de novo, mudo de diapasão, não para fugir, mas para esvoaçar a um vento qualquer.
Uma das grandes diferenças entre homem e mulher (a muito grosso modo, obviamente) é que os homens, emocionalmente menos complicados, sabem bem o que querem em termos de mulher, encontram-na rápido, ficam felizes com a descoberta e acomodam-se.Já as mulheres nunca têm a certeza de que tipo de homem estão à procura.
A maior prova disso é que os homens, quando reclamam das suas mulheres, é porque elas mudaram.
As mulheres, por outro lado, dizem: mas este homem nunca muda!assim, levemente vou de nenufar em nenufar levando água ao meu moinho.

sábado, outubro 07, 2006

"O Pensamento Aprisionado"

"O Pensamento Aprisionado"


Os únicos e autênticos grilhões que coabitam em mim, estão pendurados no
meu pensamento. Existem e são reais. Não me esquecem ou abandonam,
facilmente! Necessitam de mim e eu deles! Permanecem agarrados à avassaladora
inércia das ideias, pecando por soltarem-se! Afinal, porquê? Vivem na pacatez
e no silêncio do quotidiano, sempre presentes e indissolúveis. Perante uma
necessidade preguiçosa e parasita que exigem discrição, soltam-se e vagueiam
não muito satisfeitos na minha mente, já muito gasta e preenchida. Existem
para incomodar! Sinto-me algo confuso e insatisfeito. Não! Não tem nada a ver
com as pessoas! Tem a ver com a complexidade e as exigências estereotipadas do
mundo de hoje. Além do mais, desculpem-me, mas sobrevivo repleto de enxaquecas
desconcertantes, mas muito saudáveis e necessárias. Alertam para a vida!
Fazem-me existir! São sinais reais, mas intransmissíveis de que estou aqui!
Estou aqui, agrilhoado ao meu fiel e sincero pensamento, que me ajuda de noite
e de dia a sobreviver. Ajuda-me a fluir na imensa multidão que compartilha
comigo os milagres de sonhar e de viver! De viver e de sonhar, lado a lado,
unidos num objectivo comum, consolidar desejos e ambições. Não! Ele, o
pensamento agrilhoado, permanece preso por ideais, ideias por satisfazer, leal
e presente, mas aprisionado. Entendem? E as prisões do pensamento são comuns
a todos os mortais. Eu! Sou mais um! Se o soltarmos não existimos. O
maravilhoso sentimento da existência soçobra, cai, esvai-se num vazio e
morre. O pensamento é algo de precioso, é algo como um grande tesouro que nos
habita e, a sua magia conduz um barco, num vasto oceano de águas puras, mas
revoltas e alteradas, em face de um maremoto, orientando-o rumo a um porto
calmo e seguro. Os poetas e os sonhadores compreendem o Universo que Ele criou,
perfeito na sua imperfeição. Eu, aprisionado no meu pensamento, compreendo-o
à minha maneira inequívoca, de o observar e de o sentir, um pouco como eles.
Ele criou-o, mas esqueceu-se do pormenor de criar o pensamento comum sem ser
aprisionado, remetido ao nosso interior, sensível a tudo e a todos. Podemos
soltá-lo um pouco e, depois? Acontece que queremos divagar, corrigir e amar
também. Algo, surge...- A imperfeição! Incompreensível nas suas
contrariedades e dificuldades de ultrapassar, que exigem lucidez e prontidão
de actos sóbrios e sensatos. Os mais fortes vencem e os outros? Os pensamentos
acomodados e submissos na bajulação prosseguem intactos, mas os outros? O
pensamento criativo, insubmisso e atento? Que fazem a esse? Nem tudo está bem.
O pensamento esconde-se, retrai-se e dissolve-se! Os agrilhoes do pensamento
surgem. Mais tarde, o Universo que nós criamos, morre connosco! E com ele,
morre o sublime pensamento agrilhoado! É o fim. E, libertamo-nos, finalmente!
Mas, infelizmente, já é tarde demais! Acabou-se! Resta a dignidade e a
seriedade, esquecidas logo, do que ele foi!

By Poliedro

sábado, setembro 30, 2006

TABUS

Talvez a maior das prisões que nos afetam sejam relativas ao que se convenciona chamar de tabu.

Tabus são como sacrilégios que jamais se pode sequer pensar em fazê-los. São barreiras intransponíveis. Autênticas barragens sobre as quais se alicerçam as construções da hipocrisia social.

Quem, afinal, estipulou o que é, ou não é tabu? Sob que critários? Quem determinou as regras?

Penso às vezes em tantos tabus que existiram antigamente e que hoje são simplesmente ignorados. Penso nos tabus que carregamos, que nos coagem, sabendo que, certamente, em alguns dias, meses, anos, ou séculos, pouco importa, também deixarão de sê-lo.

Então, porque não agora? O que nos impede de ignorá-los desde já?

Apenas porque somos nós que nos impedimos realmente. Nós cobramos de nós próprios a aceitação dos tabús, afinal. Nós somos os guardiôes dos "nossos" tabus

Massai-Massai

quarta-feira, setembro 27, 2006

PRISÕES (Rika)

Pintura de Paula Rego

segunda-feira, setembro 25, 2006

Carcereiros

São tantas as prisões que nos limitam.

Afinal, tal qual passarinhos que nas suas gaiolinhas douradas, com comidinha garantida, não querem nem pensar no que fariam se um dia a portinha da gaiolinha ficásse aberta, temos é medo da liberdade.

É o velho dilema: Segurança/liberdade.

O risco do mergulho se contrapondo à mediocridade do mundinho pequeno burguês.
Resta o sonho. As viagens virtuais sem risco.

No fundo, muito mais que vítimas das prisões, somos mesmo é carcereiros também. Não. Não apenas carcereiros dos outros, mas sim carcereiros de nós próprios o que é muito mais grave.

Nós temos a chave da gaiolinha, mas mesmo assim tememos abrir a portinha e sair voando. Até quando?

Massai-Massai

domingo, setembro 24, 2006

Confirmando a vanguarda do atraso

Em Portugal são praticados, pelo menos, 20.000 abortos ilegais por ano….. ( uma voz…)
Olho-me lá para o outro lado do espelho, para ver se acordei, ou estou decepcionado com o meu sonho. Espero encontrar Alice ou um Ás de Espadas qualquer, que me alivie desta mágua; que me fale mornamente ao ouvido, dizendo que ainda estou dentro do pesadelo e nada mais é, que um vulgar pesadelo, daqueles que basta acordar e verificar que a realidade é completamente diferente, e que supera o sonho em optimismo.
…projecto para novo referendo sobre aborto votado a 19 de Outubro …. ( a mesma voz que afinal me chega em off, espreitando logo pela manha, através do rádio despertador)
Sintonizo o meu pensamento no mundo de hoje, dos acordados, dos despertos... o tal mundo moderno, globalizado, liberal, que se pretende verde e ecológico... mas onde as mulheres continuam ligadas a algumas prisões, formando um nó de paradoxos desta sociedade consumista, versus democrática – cada homem, um voto!
O íntimo é impartilhável!
Abortar é já uma violência contra a mulher altamente penalizada, pelo seu íntimo, pela sua consciência, pelos seus valores, pela sua condição económica, pelo sofrimento solitário e silencioso, porque duplicar essa violência, em termos de penalização legal e pública? Porque é que ao trauma físico e psicológico do aborto, que cada mulher suporta, se deve somar sadicamente as condições humilhantes em que a maioria das mulheres o faz, com risco da própria vida e ainda a questão da ilegalidade imposta pela sociedade?
Como é possível apoiar a condenação das mulheres que abortam e de todos os familiares ou amigos que ajudam estas mulheres em desespero?
Que hipocrisia é esta, que nos conduz a situações completamente absurdas de os próprios tribunais se sentirem incomodados a condenar, as mulheres denunciadas por pessoas que se armam em detentores da verdade, e em vigilantes da moral e dos bons costumes, quando a maioria delas, só lhes restou essa saída?
Mais um referendo???
Continua-se a discutir sempre o mesmo, continua-se a apelar para o planeamento familiar, para a adopção, para a educação sexual, para a religião, para os movimentos a favor da vida, para o confronto entre ética e ciência,...para mais um referendo… pobres das mulheres!

quinta-feira, setembro 21, 2006

As minhas prisões

Muitas são as prisões que nos encarceram em padrões pré-estabelecidos, encarceram os nossos instintos, quais barragens e suas albufeiras, tolhem a nossa perspectiva e impedem-nos de ver o que está do outro lado da montanha. Prisões são as ideias feitas, os preconceitos, os costumes, as tradições. O conformismo, a mesquinharia, a intolerância, a pequenez.
Há muito que sinto o peso das bolas de ferro no meu tornozelo. Eu, que sempre fui livre-pensador e contemplativo, estava stressado e irritadiço, mais preocupado com o futuro e com a carreira do que com o presente, com a literatura, com o facto de ser feliz e procurar encontrar o pote de ouro no fim de um arco-íris de magia e sonhos.
Apetece-me dar um pontapé no balde da minha vida, largar a profissão, parar de me preocupar. Trabalhar pouco e ganhar pouco, mas pagar as minhas contas e ter tempo livre para voar pelas ruas, olhar os sons, cheirar as cores, provar a chuva.
Fiquei surpreendido com a quantidade de bolas de ferro que temos que serrar do tornozelo. Algumas ainda carrego. A maioria, todos nós tem de as carregar.
A ideia destes meus textos seria compartilhar com outras pessoas esse processo de libertação pelo qual ainda estou a tentar passar. E, para me libertar, é preciso antes saber do quê, então o processo de libertação passa, também, por uma consciencialização sobre as prisões que nos cercam e limitam. Tentar liberta-me delas, ou não, e seguir viagem.
Ser egocêntrico é inevitável. Ser vaidoso se calhar também o é. O desafio é ser egocêntrico sem ser egoísta. Ser vaidoso sem mostrar vaidade. Tento e tentarei falar sempre só de mim, num eu que pode ser ficcional ou não, só eu o saberei, pois falar no geral, ou falar para ti, leitor, seria defecar uma regra. Longe de mim.
Não espero que ninguém concorde comigo. Sou radical, utópico e tento levar as coisas até às últimas consequências. Tenho tentado, sim, causar impacto, gerar dúvidas, simpatias e empatias, começar discussões, levantar polémicas, remexer preconceitos e, sobretudo, encontrar iguais.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Prazer. Agora ou nunca

O que é o desejo?

Porque desejamos?

Desejo pressupõe querer algo. Importa em atitudes e sentimentos que nos levam à busca do objeto de desejo. Será isso a essência da vida? A busca do que se deseja?

Mas o que vem depois?

Claro. O gozo. O desfrutar do que desejámos tanto. Será este então o significado do prazer?

E o desejo após o gozo. Como fica?

Quer se queira ou não, após o gozo, aquele desejo some. Pode até surgir um novo e que tenha até o mesmo alvo, mas, sem dúvida é outro desejo. Diferente.

O meu drama é que o meu desejo é continuar sempre tendo desejo.

Se o meu desejo é ter desejo, o paradoxo impõe que jamais goze, posto que a satisfação não está propriamente em sentir o prazer realmente, mas em buscá-lo.

Repudio que o gozo deva ser algo obrigatório.

Eis porque gosto do prazer de aprender. Pressupõe um desejo que jamais se esgotará.

Tenham uma boa noite.

sexta-feira, julho 14, 2006

Divagações poliedrícas potencialmente absurdas


O pintor não evidenciava um rosto. Pintava somente e isso bastava. O seu olhar distante, apagado e, pouco perceptível, não consentia a sua leitura. Nem a percepção do seu significado. No seu cérebro palpitava uma existência irreal, inconformada e, repleta, de divagações indefiniveis. Quando a obra surgia contemplava-a absorto, demoradamente, profundamente extasiado na magia das suas formas, como que planas, rumo ao inexplicável inteligível. Existia no seu interior algo que pulsava, algo que o agitava. Era, mas não existia. Não existia num corpo e denunciava uma mente que náo conseguia observar, como se a presença de imensas sombras o pudessem traír num silêncio incomodativo entranhado em si próprio, na profundeza da sua alma. As moscas à sua volta ganhavam vida, existiam, mas não o incomodavam. Simplesmente eram. Vagueava ao acaso. As fachadas das casas esbatiam-se à sua frente, mas não as via, formando um quadro no seu cérebro aprisionado pela luz da lua e, pelo crepúsculo, subitamente esquecido no tempo. Recordava, não se sabe como, aquele fugaz instante, aquele fugaz momento que não eram os seus. Estava onde nunca tinha estado. Porquê? Não sabia. Sentiu um arrepio provocado pelo seu presente anjo da guarda. O desenrolar da sua vida sentiu-o numa náusea cheia de pesadelos e emoções, que se esqueceram e se esmoreceram. A sua vida podia não ter sentido, impregnado de motivações contraditórias, inertes, que o tornaram descrente, apocalíptico e emudecido, por completo.
Por fim caminhou estereotipadamente, guiado por uma luz desmaiada, evitando assemelhar-se a um objecto. Conseguiu, apesar de acometido por impressões confusas, mas manifestamente incompreensíveis ao seu entendimento, tornado irreal e sonhador.

quarta-feira, julho 12, 2006

Desassossegadamente


Fragmento 6
"Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior."
Fragmento 41
"E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou."
"Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste."
"Não vejo, sem pensar."
"Não há sossego - e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter."


Escrevo sem saber o quê, como, nem onde. Escrevo solitariamente triste por estar solitário dentro de mim. Eu, ilha de pensador de ideias vagabundas, marginais sonhos, falas caladas no silêncio das noites, gemidos contidos, sorrisos aprisionados, gargalhadas abafadas.
Porque é que pensar tem de ser um acto solitário?
Porque é que os sonhos têm de ser marginais, inatingíveis pelo simples mortal?
Se eu falar para mim será que serei louco, ou será que sou surdo aos pensamentos?
Quem pode gemer pelo prazer de estar sozinho?
Vou sorrir e gargalhar das minhas ideias? Absurdo!
Traço a esquadria, marco os meus limites. Construo um muro onde me encerro. Solitário navego nas ondas deste mar de pensamentos vagos, vagueando de onda em onda, rumo ao destino traçado por um esquadro, régua e compasso.
Porque não consigo ter sossego?
Desinquieto-me!

terça-feira, julho 11, 2006

Um verdadeiro inquieto


Escolhi Chirico para personalizar esta esquadria da era digital. Já não cheira a madeira, nem a verniz, muito menos a goma laka, e… grampos?... já nem para o cabelo!... uma esquadria, com a função de conter algo no seu interior, independentemente da amplitude dos seus ângulos, que deveriam ser rectos, mas que aqui… quem sabe? … podem ter outra dimensão, outro posicionamento, consoante as vontades.
Esta esquadria habita no espaço global de todos nós, limita para além dos limites, que lhe podem ser ortogonais ou não, ou seja, não limita coisa nenhuma! …limita-se a oferecer-nos um espaço para registar o desassossego que faz parte de nós.
Há cem anos atrás, Chirico era um caso invulgar… sentiria ele desassossego também? Provavelmente, sim!... representava cenários arquitectónicos, com grande rigor e rigidez, valendo-se dos estudos renascentistas da perspectiva rigorosa, vazios de gente, enigmáticos, melancólicos e silenciosos, explorando formas de luz e sombra, ricas na indução da introspecção – a dele e a nossa, meros receptores dessa forma de expressão, quase um século depois!
O que inquietava Chirico? O que o tornava um artista desassossegado?As suas praças, e ruas delimitadas por edifícios, tal como a perspectiva, só terminam no seu ponto de fuga, que fica, segundo dizem, no infinito; são equilibradas (?) com pequenos apontamentos que traduzem o sonho, o irreal, simbolizando por vezes o isolamento do ser humano em relação ao seu meio, transportando-o para o subconsciente feito de interrogações, de mistério e de emoções desconhecidas.
A convivência entre uma luva pendurada por um pionaise, uma esfera verde e um rosto em gesso de uma estátua antiga, enquadrada em volumes arquitectónicos, forma uma simbologia duma convergência de elementos heterogéneos, todos sem sentimentos e sem emoções, diversos, mas não necessariamente divergentes ou conflituosos.
Aquele muro alto que não chega a impedir a visão da locomotiva, lá ao longe, mas faz-nos mergulhar na essência do contrário, na alma ou no interior de nós. A locomotiva é introduzida como símbolo de movimento e de velocidade, rompe timidamente a estática da composição, opção que revela alguma ingenuidade, lançando-nos num oceano de perguntas sobre a humanidade.
“Ganda tanga”! estarão alguns a comentar. Claro, sabemos lá o que ele estaria a pensar quando organizava a composição e espalhava as cores?…mas podemos questionar, avançar suposições! Sabemos mais dele, do que ele suspeitaria acerca de nós. Sabemos que lançou as bases do surrealismo através de um caminho para além da realidade, chamado posteriormente de metafísico. Suspeitamos que não pintava ao acaso, e temos a certeza que era um verdadeiro inquieto.
Espiral

ESQUADRIA EM DESASSOSSEGO


Espaço colectivo, de passagem, de registo, de reflexão, de emoção, de liberdade, de sonho, de procura em cada um de nós... de desassossego, mas sem rumo, sem destino, sem princípio e sem fim.
Se possível, que seja BELO!
1º tema - "Esquadria em desassossego"